43. (De São Paulo De Piratininga) Décio Pignatari: Crítico de Linguagens

Se houve uma concordância geral, tanto de amigos e aficionados, como de desafetos (e estes, como aqueles, proliferaram ao longo de décadas), foi quanto à inteligência fulgurante de Décio Pignatari (1927-2012), que se manifestou em sua atividade crítica, propriamente, na da polêmica e como docente. Pignatari viveu um período, no Brasil, em que ainda se lutava por ideias e isto foi o que sempre o norteou, mesmo em época de maturidade, em que se observou um arrefecimento do espírito de luta, e desânimo com relação à questão ‘Brasil’, e em que vanguardas praticamente inexistiam, ou seja, a formação de “grupos” passou a ser coisa rara ou mesmo inexistente. Nada era pacífico para alguém que sempre primou pela radicalidade.

Lá pelos idos dos ‘90, século passado, tendo observado uma narração, pela TV Globo, do Carnaval carioca, na Marquês de Sapucaí, uma descrição frouxa e insípida, sem nenhuma substância, a escritora Samira Chalhub falou: “Fosse um Décio Pignatari e teríamos lascas de brilho, paradoxos, material para pensar, passaríamos por um verdadeiro processo de aprendizado. O cara, de facto, é capaz de tirar leite de pedra!” Isto indiciava o alto e vasto repertório, a capacidade de discernimento e de verbalização de Décio Pignatari que, em muitas ocasiões, bradou pelo não-verbal, pelo icônico, contra a tirania do verbo, mas que possuía um desempenho verbal oral (e a sua contrapartida escrita) como poucos, neste País! Tendo conhecido pessoalmente Décio Pignatari em fins de 1974, inícios de ‘75, pude, ao longo de quase 4 décadas, ter o privilégio de tê-lo como interlocutor sendo que, em verdade, eu mais ouvia do que falava. Ninguém saía de uma conversa, uma aula, a leitura de um seu texto – fosse metalinguístico, fosse poético – sem ter o que pensar ou mesmo re-pensar. Cheguei a organizar uma série de ditos do Mestre, que traziam algo de inusitado, de paradoxal, trabalho que um dia deverá ser publicado. Assisti a duas palestras de Décio Pignatari nos últimos de seus anos: uma na Casa das Rosas – Hora H 14.08.2009 – sobre a qual anotei em minha agenda: “Discurso ácido sobre a incompetência brasílica – generalização”. A outra em 07.10.2009, no SEMPRE UM PAPO, SESC-Vila Mariana: “Ainda brilha o astro!” O tema era ‘O fim da literatura’. Cerca de ano e meio depois, Décio Pignatari mergulhava num processo de desmemória. É difícil encontrar texto de Décio sobre Linguagem onde a reflexão não atinja as várias Artes. E isto pode ser detectado desde as primeiras críticas assumidas em livro, como as que constam do Teoria da Poesia Concreta, obra em que divide a autoria com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Trata-se de um pensamento, de uma visão intersemiótica, marca registrada do Concretismo poético paulista e que já encontra coroamento no mais famoso dos manifestos, o qual divide com os irmãos Campos: o “Plano-Piloto para Poesia Concreta”, de 1958 em que, entre os precursores de seu Concretismo Poético, são relacionados além de poetas, propriamente, músicos e artistas plásticos. Pensador das linguagens, possuía a vantagem da capacidade de síntese, coisa que falta a muitos dos críticos, principalmente os de formação filosófica, que necessitam de 300 páginas para dizer o que um Décio Pignatari diria em 15, apenas. Trabalhos de maior fôlego de Décio Pignatari estão ligados à sua vida acadêmica – ele optou em definitivo pela Docência, no que diz respeito à sua fonte de sustento – e são os que se tornaram livros, como o Semiótica e Literatura (no Doutorado) e o Semiótica da Arte e da Arquitetura (na Livre-Docência). Por outro lado, DP não carregava o ranço acadêmico dos que se veem obrigados a detestar a Televisão – foi dos primeiros intelectuais brasileiros a enxergá-la como um veículo e até de participar de programas populares, além das muitas entrevistas que concedeu. E escreveu sobre a TV, como nunca se havia escrito, no Brasil – os artigos semanais do Jornal da Tarde vieram a se constituir em livro : Signagem da Televisão, uma seleção e rearranjo de textos, em verdade (aí, “signagem” – mais um de seus neologismos – em lugar de “linguagem”, que poderia necessariamente remeter ao código verbal). Se a crítica das Artes Visuais e da Música foram ocasionais, dentro da atividade crítica de Décio Pignatari, todo o tipo de metalinguagem que veio a fazer acabava por roçar outros campos, bem porque foram constantes e intensos os contatos do poeta com músicos e artistas plásticos e até cientistas da linguagem, como Roman Jakobson. Por exemplo: o contato com o compositor e regente Pierre Boulez (1925-2016) teve início em São Paulo, onde o músico esteve, no 1º semestre de 1954, e se prolongou na sua estada de pouco mais de um ano em Paris, onde os dois tinham encontros quinzenais. Em registro datado de 9 de abril de 1955, Décio Pignatari narra uma conversa que teve com o autor de Le Marteau sans Maître, donde eu, somando ao que ouvi do próprio Décio, conclui (à maneira de corolário), que quando se tem uma ideia, em Arte, é preciso executá-la e não esperar que condições ideais se configurem, pois, daí, não mais se a realiza – obras têm de ser feitas mesmo que apesar de… (e vai, aí, um pouco de Nietzsche). Cage foi uma outra figura exponencial com quem DP travou conhecimento. No Brasil, estará em contato direto com os músicos de vanguarda (a começar por Hans-Joachim Koellreutter – 1915-2005), a partir dos anos de 1960, sem excluir músicos do universo popular. Como embasamento teórico para os exercícios artísticos e críticos de Décio Pignatari, teríamos a destacar nomes como: Edgar Allan Poe (1809-1849), amado por Stéphane Mallarmé (1842-1898), que não foi tão considerado por Ezra Pound, amado pelos concretistas, que o tinham como um semi-deus. Charles Sandres Peirce (que amava Poe) entra nas cogitações de DP, já nos anos 1950, mas toma corpo nos ‘60 e se avoluma dos ‘70 em diante. Teoricamente, podemos observar, com nitidez, dois momentos (que acabam por se interpenetrar) norteadores, no Décio Pignatari inventor e mestre, momentos esses comandados por dois grandes teóricos: 1º Ezra Pound (1885-1972), poeta, tradutor e crítico e que é o grande mentor dos criadores da Poesia Concreta no Brasil, muito embora pareça que o Pai não chegou a se reconhecer nos Filhos, coisa comum em Arte e outros universos, mas principalmente na arte do século XX. Pound é a grande figura (e o livro ABC of Reading, traduzido no Brasil como ABC da Literatura, uma espécie de bíblia), muito embora o deus fosse Mallarmé-poeta (Un coup de dés jamais n’abolira le hasard – 1897), criador que Pound excluiu do Paideuma, preferindo outra linhagem dentro do Simbolismo francês. Pound fornece todo um instrumental crítico (rigoroso), cuja operacionalidade foi testada e aprovada – falando essencialmente de Literatura e Poesia mais especificamente, as máximas poundianas transbordavam de tais limites e atingiam outras áreas da criação artística. Os concretistas paulistas tiveram a grandeza de discernir as grandezas do estadunidense, não se deixando levar pela deplorável opção política do Mestre, no período que antecede e adentra a Segunda Guerra Mundial, e quem ganhou com isto foi a Poesia. 2º Charles Sanders Peirce (1839-1914). Décio Pignatari, que sempre se interessou pelo pensamento científico, encontrou no filósofo estadunidense (em sua Semiótica ou Lógica, parte de todo um sistema filosófico elaborado pelo pensador estadunidense) conceitos que norteariam sua visão das coisas da Linguagem, um universo muito mais vasto e preciso do que o da Semiologia expressa em Língua Francesa (e que ele, Décio Pignatari, combateu o quanto pôde, pelo seu logocentrismo, com a prevalência, portanto, da Linguística como norteadora de pesquisas de linguagem). O estudo da Semiótica peirceana, cujo primeiro contato DP teve por revelação em Ulm-Alemanha (Hochschule für Gestaltung), de Tomás Maldonado (1922-), vai se aprofundar, em verdade, nos anos 1960, estendendo-se aos ’70 e norteará, em boa parte, o pensamento pignatariano. Há outros pensadores importantes para Décio Pignatari: de Poe a Valéry, mas os acima indicados é que desempenham papel principal em seus exercícios pensamentais envolvendo as Artes: da Poesia e Literatura em geral, à Pintura, Arquitetura, Música e Cinema, assim como das novas mídias, com a TV ocupando um lugar importante. Em suas aulas e outros tipos de preleção, assim como em seus escritos, sempre que adentrava o universo diacrônico, abordava a Revolução Industrial (que mereceu dele especial destaque) e as transformações por que passaram as linguagens artísticas e não-artísticas, como desdobramentos do advento do Modo de Produção Capitalista, a começar pela invenção da Fotografia, do Código Morse etc. Na especificidade brasileira, chamou a atenção para a importância que o Positivismo teve para nossa cultura, em certa época, lamentando a desimportância que a média da intelectualidade brasileira atribuía àquela corrente pensamental. Há que se ser radical no pensamento, o qual se expressa por palavras e atitudes, mesmo sob pena de erros colossais e acertos cósmicos. E Décio Pignatari não era de deixar as coisas passarem, nem de pecar por omissão. Nos inícios dos anos 1960, frente à solicitação de abrandamento de atitudes por parte do poeta Cassiano Ricardo, DP bradou: “Na geleia geral brasileira alguém tem de exercer o papel de medula e osso!”. “Geleia geral brasileira”: expressão que depois seria utilizada em letra de canção por Torquato Neto – alusão à desdiferenciação observada em nosso país, que colocava tudo no mesmo saco, ignorando parâmetros elevados. Quando da publicação da antologia Noigandres 5, com capa reproduzindo um quadro de Alfredo Volpi (que fazia parte de sua coleção particular), aparece na 1ª orelha do volume algo que tem tudo para ser de DP: “capa: homenagem do grupo noigandres a alfredo volpi, primeiro e último grande pintor brasileiro”. Logo que assistiu ao filme Iracema – uma transa amazônica, dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, entusiasmadíssimo, elevou o filme à categoria de obra-prima e disse: “Fellini terá de rever seus filmes” – por certo, apesar das qualidades do filme referido, um exagero que não chegou, pelo que me consta, a repetir. A uma pergunta de Régis Bonvicino, sobre se o verso seria, novamente, uma das estruturas possíveis do poema, numa época do vale-tudo, em uma entrevista publicada no jornal Diário de S. Paulo, de 9 de novembro de 1978, deu uma resposta demolidora de ilusões: “Transpondo aquele koan do Suzuki, contado pelo Cage, em A year from Monday: antes da poesia concreta: versos são versos. Com a poesia concreta: versos não são versos. Depois da poesia concreta: versos são versos. Só que a dois dedos da página, do olho e do ouvido. E da história.” Por ocasião da grande mostra na Pinacoteca do Estado, em São Paulo e Rio de Janeiro: “Projeto construtivo brasileiro na arte: 1950-1962” – 1977, com curadoria de Aracy Amaral, sentiu que o Concretismo paulista havia sido prejudicado de vários modos e os artistas que haviam operado a partir do Rio de Janeiro haviam levado a melhor – concretos e neoconcretos – iniciou uma polêmica pela revista Arte hoje, que acabou por envolver, além de Ferreira Gullar, o poeta Augusto de Campos. Sempre considerou os artistas do “Grupo Ruptura” injustiçados e que deveriam, pois que mereciam, ter uma abordagem crítica maior e mais consistente, bradou aqui e ali, mas considerou que era tarefa para um crítico especializado. Chegou a dizer várias vezes que Aracy Amaral seria a grande crítica para os paulistas (ou os que operaram a partir da cidade de São Paulo), mas que ela os havia traído. Tudo indicaria que a importante crítica teria enorme simpatia pelos artistas que operaram a partir do Rio de Janeiro, favorecendo-os, de algum modo. Chegou a chamar a atenção para os papéis que Antônio Dias havia feito no Nepal. Adoração por Oswald de Andrade e simpatia por Tarsila do Amaral: “Eles utilizaram parte das fortunas de suas famílias para adquirir um alto repertório (em Paris etc…).” Interessantes as críticas-relâmpago feitas à maneira de longas legendas de figuras, em livros como o Contracomunicação. Quanto a Julio Plaza, artista espanhol radicado no Brasil – e tudo indica que aqui permaneceu dado o seu maravilhamento pela Poesia Concreta e congêneres – chegou a dizer que o seu grande problema era o do pretobranquismo: “Julio Plaza tem de sair do preto-e-branco!” Elogiou muito a capa que JP fez para a 1ª edição do seu Poesia pois é poesia, editado nos anos 1970 pela Livraria e Editora Duas Cidades: “O espanhol me fez uma bela capa”. Num momento de ira: “Julio Plaza é um plagiador!” – em verdade, uma referência às apropriações criativas que Julio Plaza fazia. Em 1980, em texto curto para uma exposição de Julio Plaza, Décio Pignatari escreveu: “Suas leituras-visualizações de poemas são algo de raro e novo: poucos artistas conviveram tanto e tão profundamente com poemas e poetas. Notável é a sua leitura do poema ‘Cidade’, de Augusto de Campos, onde a linearidade é rompida paródica e realisticamente por um excesso de acidentalização tipográfica, como que a dizer que a paisagem urbana, seu skyline, aparentemente uniforme à distância, é menos montagem do que colagem (e a viva-cidade de colocar o VIVAIA, do próprio Augusto, no meio da runicidade).” Grande poeta, Décio Pignatari ainda não conta com uma fortuna crítica apreciável, mas ficam para a Posteridade peças que têm maravilhado sensibilidades informadas, que o colocam como um dos mais importantes fazedores do século XX, em âmbito internacional, ele que costumava proceder a comparações, sempre a considerar os feitos planetários para emitir os seus juízos. Costumo colocar DP como o olho tipográfico mais agudo do Planeta, no século que acabou de passar, juntamente com o estadunidense E. E. Cummings. Além dos poemas que se seguem e que atestam sua capacidade de arranjos gráficos (e semânticos), poderia destacar trabalhos de programação visual e elaboração de capas, como a dos Cantares, de Ezra Pound, do livro de poemas Um e dois, de José Lino Grünewald, o livro Soma, de Edgard Braga, a capa do Teoria da Poesia concreta, a logo-capa da revista Invenção – dos 5 números, com variação apenas da cor de fundo e das matérias anunciadas. Como pintor, propriamente, DP foi menos que bissexto e, pelo que eu saiba, nunca se pretendeu colocar como tal. Numa pequena antologia de poemas de Décio Pignatari, eu escolheria, para já começar impactando o leitor, as seguintes peças: Eupoema, Noção de Pátria, “Move-se a brisa ao sol”…, Um Movimento, Terra, (beba) coca-cola, Life, Organismo, Stèle pour vivre 4, Noosfera (que o autor, antes que poesia, prefere chamar de prosa). Uma antologia de textos críticos/teóricos de Décio Pignatari deveria conter: Volpi, Teoria da Guerrilha Artística, A Ilusão da Contiguidade, A Metalinguagem da Arte, O paleolhar da televisão, Errâncias (o livro todo, que é quando e onde o exercício de escrituração em prosa metalinguístico-memorialista atinge o seu apogeu, alcançando um nível pouco visto entre nós). Muitos dos textos críticos de Décio Pignatari foram publicados na grande mídia, sendo que, às vezes, os títulos foram refeitos, em função do que o editor achasse que era mais conveniente. Ao republicá-los em livro, os títulos eram recuperados, como o que foi publicado no Jornal da Tarde, de 13.02.1982, em que consta “A semana que não houve nas nossas artes plásticas”, constando, no livro Cultura Pós-Nacionalista: “Semana de Arte Moderna: 22, 32, 42, 52, 62, 72, 82, 92, 2002…” Há todo um material a ser lido e relido, descolado da pena de Décio Pignatari que, juntamente com companheiros de jornada poética e teórico-metalinguística, marcou em definitivo – o antes e o depois da Poesia Concreta – e elevou a produção de linguagem no Brasil. A qualidade de sua poesia, assim como de sua produção metalinguística, representa acréscimo significativo ao patrimônio geral da História da Sensibilidade.

Fontes:

.CAMPOS, Augusto de, PIGNATARI, Décio e CAMPOS, Haroldo de (2006) Teoria da Poesia Concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. Cotia-SP: Ateliê, 2006.

.PIGNATARI, Décio (1979) Alfabeto Vertical. In: Através 3. São Paulo: Duas Cidades, p. 60-63.

.__________ (1976) A Metalinguagem da Arte. In: Escrita: Revista Mensal de Literatura 9. São Paulo: Vertente, p. 15-17.

.__________ (1980) As Armadilhas para o Espaço de Julio Plaza. Verso do cartaz anunciando a exposição Arte como Arte, de Julio Plaza, no MAC-USP.

.__________ (1977) A ilusão da contiguidade. In: Através 1. São Paulo: Duas Cidades, p. 30-38.

.__________ (1982) A Semana que não houve nas Artes Plásticas. In: Jornal da Tarde, “Caderno de Programas e Leituras”, de 13.02.1982, p. 1 e 2.

.__________ (1971) Contracomunicação. São Paulo: Perspectiva.

.__________ (1998) Cultura Pós-Nacionalista. Rio de Janeiro: Imago.

.__________ (1956) Depoimento: Poesia ideogrâmica ou Concreta. In: Revista Graal: Poesia. Teatro. Ficção. Ensaio. Crítica. 2. Lisboa: ENP-Empresa Nacional de Publicidade, junho-julho de 1956, p. 208-9.

.__________ (1978) Encontro com Boulez. Après-midi de 9 abril 1955, sábado, Aleluia. In: Leminski, Paulo ed. Polo Cultural Inventiva 32. 14 de dezembro de 1978. Curitiba: Escritório de Promoção da Cultura Paranaense, p. 7.

.__________ (1987) Entrevista. In: Cocchiarale, Fernando e Geiger, Anna Bella (org.) Abstracionismo Geométrico e Informal: a vanguarda brasileira nos anos cinquenta. Rio de Janeiro: Funarte-Instituto Nacional de Artes Plásticas, p. 70-83.

.__________ (2000) Errâncias. São Paulo: SENAC.

.__________ (1979) História sem estória. In: Através 3. São Paulo: Duas Cidades, p. 71-74.

.__________ (1973) Informação. Linguagem. Comunicação. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva.

.__________ (1995) Letras Artes Mídia. São Paulo: Ed. Globo.

.__________ (s.d.) Montagem, colagem, bricolagem ou: mistura é o espírito. In: Cadernos PUC 8 – Arte e Linguagem. São Paulo: PUC, p. 85-89.

.__________ (1988) O paleolhar da televisão. In: Novaes, Adauto (org.) O olhar. 9ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, p. 487-492.

.__________ (1981) Oswald psicografado por Signatari. Edição especial da revista Código 6. Salvador-BA: Ed. Erthos Albino de Souza.

.__________ (1988) Podbre Brasil: crônicas políticas. Campinas: Pontes.

.__________ (2004) Poesia pois é Poesia: 1950-2000. Cotia-SP: Ateliê-Campinas: Ed. da UNICAMP.

.__________ (2004) Semiótica da Arte e da Arquitetura. 3ª ed. Cotia-SP: Ateliê Editorial.

.__________ (1983) Semiótica da Montagem. In: Através 1. São Paulo: Martins Fontes, p.168-174.

.__________ (1981) Semiótica da TV. In: DeSinos 6. São Paulo: Ed. Samira Chalhub et alii, p. 6 e 7.

.__________ (1974) Semiótica e Literatura. São Paulo: Perspectiva.

.__________ (1984) Signagem da Televisão. São Paulo: Brasiliense.

.__________ (1983) Teotihuacan: o design da água. In: Através 1. São Paulo: Martins Fontes, p. 175-178.

.__________ (1977) Tempos Concretos. In: “Caderno de Domingo”, seção “Artes Visuais”, da Folha de S. Paulo, de 19 de junho de 1977, p. 56.

.__________ (1980) Um neolítico de consumo. In: Ramos, Oscar e Figeiredo, Luciano (org.) Rio Deco. Rio de Janeiro, Achiamé, 4 páginas não-numeradas.

.__________ (1986) Um radical inseguro. In: Waldemar Cordeiro: uma aventura da razão (catálogo de exposição). São Paulo: MAC-USP, p.11 e 12.

42. (De São Paulo de Piratininga) 5 Resumos Expandidos de Trabalhos Apresentados e Publicados em Lisboa

As Facturas Intersemióticas De Paulo Miranda, Um Poeta Da Era Pós-Verso

Nascido em 1950, Paulo Miranda desde cedo dedicou-se aos estudos e às práticas poéticas, chegando, ainda adolescente, a um grande domínio da tecnologia do verso, daí resultando algumas poucas peças, as quais poderiam ser consideradas modelos de incursão fanopaica em poesia, como colocou Ezra Pound para os poemas em que as palavras remetem a imagens. Porém, a partir de meados dos anos 1970, de par com a revivescência da experimentação das Artes no Brasil, sua poesia se encaminhou para um tipo de procedimento que, à época, costumava-se chamar Poesia Intersemiótica, ou seja, aquele tipo de poesia em que seus resultados configuram-se como um encontro de códigos/linguagens, quase sempre com predomínio dos códigos da visualidade, sem deixar de lado o verbal, mesmo quando se resumia a resíduos de um discurso poético, ou ao título da peça. Sendo uma poesia que possui como precedente, no Brasil, a Poesia Concreta, foi proposta a denominação Poesia da Era Pós-Verso, muito embora a poesia versificada se mantivesse – com importância reduzida – como prática no Brasil e no Mundo. A poesia praticada por Paulo Miranda possui como uma das principais características o seu trânsito nos vários media, sem perda de informação estética e é o que se tem verificado e, sob esse aspecto, chega a ser um trabalho paradigmal. O poeta, em cerca de 40 anos, não chegou a produzir vinte peças, menos por falta de ideias que por apego ao rigor e o temor à redundância. Cinco de seus trabalhos serão apresentados, seguidos de breves abordagens formais/críticas. CSO’2014

E Pluribus Unum: As Poéticas Viso-Conceituais De Peter De Brito, Um Artista Da Contemporaneidade

 No panorama das Artes Visuais da contemporaneidade brasileira, Peter de Brito (nascido em 1967) é um valor artístico que, mesmo tendo alcançado, enquanto produtor de linguagem, o patamar do notável, não chegou à notoriedade propiciada pela veiculação de seu trabalho nos vários media, principalmente os impressos, o que significa que ainda não adentrou o difícil e inevitável universo do mercado de arte. Admirável em seu trabalho, que se desenvolve de 20 anos para cá, é o metamorfosear do qual resultam fases bem distintas, mas que mantêm uma unidade temática e qualidade formal, envolvendo propósito, competência artesanal e forte conceptualismo, o que o coloca de par com o que se pode chamar Contemporaneidade. São apresentados, aqui, três momentos de seu percurso artístico, quais sejam: 1. As experiências fotográficas em que dialoga com a tradição artística, a partir da Renascença, elegendo fazedores, como Michelangelo Buonarroti, entre outros, e justapondo e superpondo imagens – criando o inusitado ou, mesmo, dispondo-as sequencialmente; 2. a auto-abordagem, multiplicando-se em personae muitas, onde entra toda uma crítica (via moda e grifes) ao consumismo desenfreado de nossa época; 3. o momento em que, apropriando-se de imagens de auto-representação de outrem, via Internet, constrói todo um universo em que reina Eros, o Amor carnal, abarcando a mais tradicional técnica de pintura, a modelagem/escultura e o vídeo. Num tempo em que não mais se visa à excelência do desempenho artesanal, porém não se o exclui, em que o conceito ocupa o centro das cogitações, de par com a utilização das novas tecnologias/linguagens, Peter de Brito abraça o momento e produz algo digno de nota, como que adotando o que, nos anos 1980, escreveu Haroldo de Campos sobre o poema pós-utópico: como algo aberto à pluralidade das possibilidades do hoje. Múltiplo e uno – assim é, em sua obra, Peter de Brito. CSO’2015

 

As Incursões Gráficas E Pictóricas De Tadeu Jungle (Ou, O Elogio Do Ruído)

Mesmo considerando-se, antes de tudo, um poeta, Tadeu Jungle (São Paulo 1956-) transita por várias artes e afazeres, destacando-se como vídeo-artista, performer, cineasta, apresentador e, certamente, poeta. Tendo começado a atuar, como produtor de linguagem, a partir de fins dos anos 1970, o que o tem marcado é um desempenho interdisciplinar, em que o exercício multimedia e a intersemioticidade se acoplam, donde saem produções admiráveis. Mesmo sendo um digno representante dos poetas que receberam forte herança do Concretismo paulista, sua cabeça anárquica, mais ao modo de Oswald de Andrade, fá-lo produzir peças que logo se tornam antológicas na panorâmica brasileira da experimentação. Para Tadeu Jungle viver a vida é viver a aventura da linguagem e, quando esta se refere à poesia, produz peças que chegam a criar uma certa instabilidade emocional em quem as aprecia, identificando-se, nisto, com outros poetas da mesma estirpe, experimentadores que atuam na Era Pós-Verso. Sabe o que é caligrafia, e produz cacografia, conhece eufonia, mas desdobra-se em cacofonia, é exímio em se tratando de eurritmia, no entanto, opta pelas quebras de ritmo. Foi dos primeiros poetas grafitadores de São Paulo sendo que, trabalhar sobre papel, placas de aglomerado ou muros/paredes, para ele era apenas uma questão de oportunidade. Algo notório em seus trabalhos é a presença de ruídos (perturbações no processo), que ele persegue e, dando chance ao acaso, permite que aqueles ocorram em profusão – o ruído a entrar como elemento constitutivo estrutural da obra de arte, como na música de John Cage. Rigor e desmazelo, acaso e controle, ruído e informação – Tadeu Jungle opera nesse território. Em seus poemas, tanto se vislumbra a herança dos concretos, como a do ready-made duchampiano, da arte pop, mormente a estadunidense, destacando-se, ainda, a cali- ou a cacografia gestual, como no poema O lance do gago, em que parodia-homenageia-faz-referência ao Lance de dados malarméano. Da geração surgida no Brasil nos anos 1970, Tadeu Jungle é um desses valores maiores. É menos conhecido como poeta que como vídeo-artista, e sua contribuição tem sido grande em todos os campos em que vem atuando. Porém, sua contribuição maior é no campo da poesia, em que o verbal e os códigos da visualidade se encontram e fazem configurar poemas que se distinguem pela qualidade. Rev. :ESTUDIO ‘2015-16

 

Non Multa Sed Multum: Parcimônia E Prodigalidade Na Obra De Villari Herrmann

A Poesia Concreta se constituiu no primeiro movimento de criação artística internacional que deve sua origem, inclusive, aos brasileiros do Grupo Noigandres. Estes perceberam que o Brasil, folclore à parte, era um país que comportava precisão e rigor, como se observava na arte europeia de linha construtiva, ligada às chamadas vanguardas históricas. Configurou-se, a partir das produções artísticas e críticas dos referidos poetas, uma tradição de parcimônia e rigor, que se radicalizou principalmente na obra de poetas que começaram a publicar seus trabalhos a partir dos anos 1970. Villari Herrmann (São Carlos, SP, Brasil: 1943-) destaca-se dentre os poetas do referido momento – e dali em diante – como um valor exponencial, devido à excelência de suas facturas e à quase-total ausência de redundâncias numa obra pouca, que já nasce antológica, dada a seleção feita pelo próprio artista antes de enviá-la ao público, considerando os fatores que dela fazem uma obra mais notável que notória: a perfeita fusão de elementos do código verbal com os da visualidade (aspectos gráficos e cromáticos), enfim, a intersemioticidade, a vocação do trânsito entre os vários media sem perda de informação estética, uma aparente dificuldade de leitura, em princípio, compensada pela alegria da descoberta. Villari Herrmann opera no limite entre a Poesia, propriamente, e as Artes Visuais, sendo um grande conhecedor destes dois universos, e os obriga a um diálogo que resulta em trabalhos surpreendentes. O poeta entra, para outros poetas brasileiros da mesma estirpe, como uma espécie de paradigma – citem-se poemas de Júlio Mendonça (1958-) e Gastão Debreix (1960-), assim como do também paradigmal poeta-construtivista: Erthos Albino de Souza (1932-2000). Villari Herrmann, sem a síndrome de liderança e sem proselitismo de qualquer espécie, acaba por encabeçar toda uma plêiade de fazedores, que tem produzido a Poesia mais instigadora de que se tem notícia no Brasil nos últimos quarenta e cinco anos. Sua poesia traz à luz um Brasil diferente do Brasil-para-turistas, provando que (como sabiam Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos – três grandes nomes do universo lusófono) o poema, como as obras de arte em geral, é, de facto, resultante de um processo em que racionalidade e sensibilidade interagem para que a obra aconteça. CSO’2016

Lenora De Barros: Uma Produtora De Linguagem Transpondo Fronteiras

A partir de meados dos anos 1970, no Brasil, observou-se, não apenas a retomada do experimentalismo em poesia, com incursões intersemióticas, mas também, o surgimento de revistas experimentais, que foram o principal veículo da referida poesia, nos anos ‘70, ‘80 e ‘90, revelando valores notáveis, muito embora sem um trânsito (na maior parte dos casos) nos grandes media. Poetas como Villari Herrmann, Paulo Miranda, Lenora de Barros, Júlio Mendonça, Walter Silveira, Tadeu Jungle, Aldo Fortes, Arnaldo Antunes, Gil Jorge, Gastão Debreix, João Bandeira, entre outros. As revistas: Navilouca, Polem, Código, Artéria, Qorpo Estranho, Zero à Esquerda, Atlas etc. Estas, geralmente de vida breve, com poucas chegando ao terceiro número ou ultrapassando-o. Dentre os então novos valores, destaca-se Lenora de Barros (São Paulo, 1953-), fazedora que, desde a sua primeira publicação, transita num universo sem fronteiras entre as linguagens, trazendo lastro do repertório concretista – com o seu construtivismo e o exercício experimental da fotografia – e da Pop Art, juntando-se, ainda, a herança duchampiana (alicerçando a Arte Conceitual), mais uma competência rara na lida com o código verbal. Difícil classificar Lenora de Barros, depois de décadas de atuação como produtora de linguagem: poeta, artista plástica, videoartista, performer? O mais correto seria chamá-la simplesmente de ‘artista interdisciplinar’, com um trabalho que se distribui por muitas linguagens e meios, mas que mantém uma coerência temática e de arrojo formal, como poucos. Lenora de Barros possui poemas dignos de serem veiculados em quaisquer antologias planetárias, o que, de facto, tem ocorrido. Sua produção, no Brasil, deve figurar entre as das grandes mulheres, que elevaram a Arte brasileira a um patamar notável, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mira Schendel, Regina Silveira e algumas outras. Some-se a isto a sua postura dentro de um neo-feminismo brasílico, forte mas sem estardalhaço. De comportamento paradigmal, Lenora de Barros adentrou, com vigor poético/artístico, o século XXI. CSO’2017

 

 

 

 

41. (De São Paulo De Piratininga) Revista Código 1 – Bahia

            Revistas sempre me fascinaram: dos gibis, na infância (cheguei a formar uma pequena coleção, desfeita pelos empréstimos sem devolução), às revistas literárias, na adolescência, e daí em diante. As experimentais, desde que tomei conhecimento de Klaxon, fins dos anos 1960 e, nos inícios dos anos 1970, em que pude consultar os números da edição original no IEB-USP e o fac-símile 1972 o qual foi-me oferecido, em meu aniversário daquele ano, por Paulo Miranda. Possuía conhecimento bem anterior da experimental-concretista Invenção, a de nº 5, numa aula em que palestrante a mostrou para alunos do então Colegial – seus cinco números, vim a conhecer depois, e bem, assim como os também cinco números de Noigandres.

            Tomei conhecimento da Código, revista editada por Erthos Albino de Souza (1932-2000), com fundamental colaboração de Antonio Risério Filho, em fins de 1974, graças ao Poeta Augusto de Campos, com quem havia entrado em contacto, a propósito de meu primeiro livro: Jogos e fazimentos, que havia saído pela Nomuque Edições, naquele mesmo ano. O autor do Poetamenos é que me ofereceu um exemplar, o qual eu não havia encontrado – seguindo indicação do Poeta – na Feira da Bahia, que se realizava no Anhembi, São Paulo.

            Ao que me lembro (porém, devem existir muitos mais), há dois trabalhos importantes que tratam da Código: um, de autoria de Felipe Paros, que se constituiu em sua Dissertação de Mestrado, que contou com minha orientação, no IA-Unesp: Decifrando Códigos…, de 2005 e que continua inédito, à exceção de artigos sobre o tema publicados pelo autor. O outro, trabalho de equipe – Ariane Stolfi, Bruno Schiavo, Daniel Scandurra, Gabriel Kerhart e João Reynaldo – que foi concluído em 2016 e que se encontra na Rede: Código Revista (digitalização da revista Código). Esses trabalhos, mais o que foi feito em época recente tendo como objeto a revista Artéria, são importantes para a recuperação de uma história já feita e por fazer, que trata das revistas experimentais do Brasil, a partir dos anos 1970.

            Mas o que me deixou preocupado, há pouco tempo, é se haveria erro de minha parte na datação do nº 1 de Código, em que consta o ano de 1974 – a revista, propriamente, não traz a data de sua publicação e o que se sabe, com certeza, é sobre a sua distribuição a partir de inícios daquele ano, ano em que passam a circular, também, Polem e Navilouca. Navilouca teve inúmeros problemas, a começar pela morte prematura de Torquato Neto, em 1972, sendo ele, com Waly Salomão (Sailormoon, como assinava seus trabalhos) co-organizador da revista, a qual enfrentou problemas financeiros, somente saindo graças à interferência de Caetano Veloso, que intercedeu junto a André Midani, da Polygram, que acabou por financiar a sua liberação da gráfica, sendo distribuída em fins de 1974 como “brinde de fim de ano”, sendo melhor distribuída no ano seguinte, como me informou por telefone e chegou a escrever e publicar Waly. Polem, como me falou Duda Machado, foi pensada em função da não-saída de Navilouca e até manteve bastantes afinidades formais com ela, assim como manteve parte substancial de colaboradores.

            Afinal, um ano possui 365 dias e importa, sim, saber como foi a ordem de entrada em cena dessas importantíssimas revistas, verdadeiras lendas na história de publicações coletivas de ponta no Brasil. Das 3 revistas, a que maiores afinidades possuía com o espírito gráfico dos concretistas foi Código, muito embora Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari colaborassem em todas elas.

Documentos:

  1. Datada do último dia do ano de 1974, recebi, de Erthos Albino de Souza, uma carta-bilhete, acusando o recebimento de meu 1º livro: Jogos e fazimentos, que a ele e ao Risério eu havia enviado, por sugestão de Augusto de Campos:

Bahia, 31/12/74

 Caro Omar Khouri

 Recebemos, eu e Antonio Risério, o livro jogos e fazimentos

Que muito nos agradou e agradecemos.

Estamos com seu endereço para envio do próximo número da revista

CÓDIGO que em breve sairá pela segunda vez.

Receba abraços do

 Erthos

            Código 2 saiu no 1º semestre de 1975 e Erthos enviou-me prontamente 1 exemplar – saiu antes de Artéria 1, revista editada por mim e por Paulo Miranda, motivada, em grande parte por Código 1 e que trazia a chancela da Nomuque Edições – editora criada por nós, em Pirajuí, no ano de 1974.

  1. Troca de e-mails entre mim e Risério, em 16 de fevereiro de 2017:

Risério, meu caro

Tanta água já rolou, porém, ainda tenho uma dúvida que, em verdade, não altera o curso da História. A Código 1 (que inspirou Artéria 1): consta, para mim, que saiu (ficou pronta, impressa) em inícios de 1974 (a revista não traz a data). Acontece que já encontrei a data de 1973. Sei que o trabalho de vocês se desenrolou, mesmo, em ’73. Por favor: esclareça-me. Grato.

Abraços

Omar

           A resposta de Risério:

Omar, amigo… infelizmente, Erthos já se foi: ele responderia de forma definitiva.

Minha memória falha, principalmente depois do AVC.

Mas tenho para mim que ficou impressa em 1974.

Erthos carimbou alguns exemplares, mas não tenho nenhum deles.

Vc viu que compartilhei no fb seu texto sobre meu romance?

Grande abraço,

AR.

           Eu, esclarecendo detalhes:

Risério, caríssimo

Obrigado pelo retorno. Você esteve na Feira da Bahia (Anhembi) em fins de 1974? Lá adquiri Polem e Bahia Invenção (por si organizada), mas não a Código 1, que me foi oferecida, em fins de novembro, na 1ª visita que fiz à casa de Augusto de Campos.

Abração

Omar

           Risério:

Sim, estive na Feira. “Bahia Invenção” foi produzida especialmente para a feira. Passei quase um mês em São Paulo. Augusto ia lá quase todo dia – comer comida baiana. Organizei o stand de poesia. Tinha uma placa enorme com o poema de Augusto – e uma fita girando com Caetano dizendo “Dias Dias Dias”. Smetak, Augusto e Haroldo conversando (coloquei esta cena no meu romance). E um músico argentino de vanguarda, Rufo Herrera, e um grupo chamado Octeto, com a “ópera” Onirak, onde os cantores recitavam cidade/city/cité… Foi uma festa essa feira.

Grande abraço,

R.

          Respondi a Risério:

Risério: e você com 21 anos!

Augusto, por telefone, antes que eu fosse à sua casa, havia dito a mim que aconteceria a Feira. Não desfrutei de todo o complexo de eventos, mas lá estive. Seguia os Bahianos (Baianos?) desde meados dos ’60, lá de Pirajuí. Vamos nos falando. Abracíssimo

 Omar

  1. Em carta de Antonio Risério para Augusto de Campos (cedida a mim por este), datada de fevereiro de 1974:

fev. 74

augusto:

você já deve ter recebido a revista. acho que ela ficou bonita e espero que você tenha gostado. foi a primeira vez q fiz tal tipo de trabalho. gostei. há, é claro, muitas coisas a corrigir.

[…]

estamos planejando um segundo número (cor e formato diferentes) para maio ou junho. […]

           Augusto:

17-2-74

caro risério

este pequeno bilhete out of board com pés em terra aqui em spaulo SÓ PARA CUMPRIMENTÁ-LO (já falei com o Erthos por telefone) pela revista!!! gostei demais, embora eu seja o menos indicado para tanto já que fui o mais premiado em espaço e matéria, mas está mesmo legal, bem impressa, ágil, viva. estou entusiasmado, esperando q a coisa continue e haja novos números. conte comigo.

 uma só observação. acho q devia haver uma referência qualquer: título e mais local e data. agora q vejo a revista e o título me vem naturalmente: CÓDIGO. CÓDIGO 1, CÓDIGO 2, CÓDIGO 3, etc. acho legal. […]

[Rubrica de Augusto de Campos]

            Em entrevista concedida a Bruna Callegari, do ‘Espaço Líquido’, um 24 de julho de 2015, com vistas ao documentário “Artéria 40 anos”, e publicada no catálogo da mostra de São Paulo (2ª ed. junho de 2016, p. 45) disse Augusto de Campos: “A primeira que surgiu nessa fase dos anos 1970 foi a revista Código, na Bahia, em fevereiro de 1974, dirigida pelo Erthos Albino de Souza, precursor da poesia digital no Brasil, e pelo Antonio Risério, jovem poeta que tinha 20 anos naquela época. Em seguida saíram as revistas Polem, do Rio de Janeiro, dirigida pelo Duda Machado, que também era ligado, de alguma forma, ao grupo da Bahia, e finalmente a Navilouca, que teve um único número e que foi lançada em dezembro de 1974, criada pelo Torquato Neto e Waly Salomão. Então, houve aí uma confluência de poetas que provinham também do contato com o grupo poético da Tropicália.”

            Interessante que revistas experimentais, em Portugal, são marcadas pelo 2, dois números, a começar pela célebre Orpheu (a de nº 3 ficou na provas tipográficas). Nos anos 1960 – Poesia Concreta e experimental, idem: Poesia Experimental, Operação e Hidra. No Brasil, Klaxon, com seus 9 números em 8 volumes (1922-23), acabou e recebeu, em 1924 comentário raivoso de Manuel Bandeira: “Paulo Prado faz a semana de arte moderna, aceita almoço dos klaxistas e, rico, deixa morrer a klaxon…” (Andorinha, andorinha, p. 248). Parece que não foi por falta de dinheiro que Klaxon acabou, mas mais por falta de disposição em continuar, falta de entusiasmo, a partir de um certo momento, daqueles que se envolveram diretamente com sua elaboração, como colocou Mário da Silva Brito (O alegre combate de Klaxon).

            Código, prodigiosamente, chegou ao número 12 (1989-90) e deixou de ser editada, mais por dificuldades de conseguir um designer gráfico, que cuidasse do projeto, do que por qualquer outra coisa. Também, um certo cansaço de Erthos Albino de Souza, que bancava (porque possuía os recursos financeiros necessários) totalmente a Revista e que, aposentando-se da Petrobrás, passou a ter muito mais tempo (desnecessário, diga-se) para cuidar de outras edições de Código, que não vieram. Em 1991, por ocasião do lançamento de Artéria 5, no MASP, com grande exposição, ele esteve em São Paulo – foi quando o conheci pessoalmente (Paulo Miranda já havia estado com Erthos, em Salvador-Bahia). Havia nos enviado em trabalho mais-que-interessante e que foi impresso, como os demais, pelo processo serigráfico. Ele até tentou colaborar financeiramente com Artéria 5, mas, já não era preciso. Ainda falei com ele por telefone (na época, eu cursava o Doutorado em COS, na PUCSP, e pesquisava a Poesia Visual em geral e as “revistas”, em particular) e, tendo-lhe perguntado sobre Código, ele me disse: – Está parada. Simplesmente. Quando, em 1995, eu lhe telefonei para saber se havia recebido um meu trabalho (o 1º volume do De Amor e Merda) ele me respondeu, após eu ter-me identificado: – Omar? Quem? O Alzheimer já o estava acometendo. Foi-se relativamente cedo, no ano 2000, antes de se tornar um septuagenário. Sua poesia ainda carece de ser reunida e isto ainda virá a acontecer. A façanha da Código – que chegou a ser uma publicação mutante, quanto a formato – coloca-o na História da Poesia Experimental brasileira, além da importante obra poético-gráfica que chegou a produzir, e suas incursões poéticas em linguagem computacional, em que foi um pioneiro. É pequena minha correspondência epistolar com Erthos Albino de Souza, a qual ainda conservo. Grande pessoa, o Erthos.

            O ano de 1974 constitui-se num marco de publicações coletivas experimentais, no Brasil. Código, Polem, Navilouca marcaram e ainda impressionam aqueles que, em casa de algum amigo ou numa seção de biblioteca têm a sorte de encontrá-las. Código inaugura a safra de ótimas revistas, tendo sobrevivido à maioria delas.

Omar Khouri – São Paulo, 18 de outubro de 2017

40. (De São Paulo De Piratininga) Lisboa, a Bela, em 1 Semana

Lisboa se situa à margem direita (Norte) do rio Tejo, bem próxima à foz, no Atlântico. Pode-se chegar à margem esquerda (Sul) pela ponte 25 de Abril ou, o que é mais interessante, tomando-se a barca, que sai do Cais do Sodré e vai até Cacilhas – um passeio pela orla (a pé, é claro) seria interessante e é onde se encontram restaurantes como o Atira-te ao Rio ou o Ponto Final, com boa comida. Agora, Lisboa está com 4 horas a mais que a Hora Oficial do Brasil, é Primavera, o que quer dizer que, pela manhã chega a haver um friozinho, assim como à tarde e durante a noite.

Há Metro, autocarro e táxi (estes são bem baratos – como diz o Paulo, nunca faça a conversão para Reais, pois Euro é Euro e vocês estarão a passeio).

O hotel onde vocês irão ficar, colado à Praça Marquês de Pombal, fica próximo ao Parque Eduardo VII (ou fica no próprio Parque, não sei bem): é lindo percorrê-lo (subir e descer). Da Praça MP para baixo: Avenida da Liberdade: belíssima e dá para percorrê-la toda, até à Praça dos Restauradores e, mais um pouco, a Gare do Rossio, onde se toma o comboio (trem) para Queluz (Palácio onde nasceu e morreu Pedro I do Brasil, IV de Portugal) e/ou Sintra (40 minutos de viagem – sai-se a pé, até ao Palácio Real, que vale a pena visitar. Há, ainda o Palácio da Pena: melhor por fora que por dentro e o Castelo dos Mouros, de onde se tem uma das mais belas vistas do Mundo. Há mais coisas a fazer em Sintra, mas bastará uma bela caminhada. Comida simples, boa e barata: Periquita II, onde se degusta o tal travesseirinho: um doce delicioso de massa folhada e creme).

Do Rossio, vai-se à Praça D. Pedro IV (onde fica a Pastelaria Suíça) e adentra-se a Rua Augusta: um belo calçadão, coalhado de turistas (alto-astral) e onde há a lojinha Pé de Meia, onde se compram meias de todo tipo e a bom preço.

Da Praça, pode-se pegar a Rua do Carmo, onde se localiza a HM e outras lojas de confecções e, no Topo, os Armazéns do Chiado, sendo que, da frente, sai a Rua Garrett (vocês estarão no Chiado, um dos bairros mais famosos e movimentados de Lisboa), frequentada outrora por Fernando Pessoa e outros artistas – nessa rua vocês encontrarão a Livraria mais velha do Mundo, a Bertrand, assim como o café A Brasileira do Chiado, com direito a uma foto junto à estátua em bronze do FP. Na mesma rua, uma das melhores pastelarias (confeitarias) de Lisboa, a Alcoa. Das ruas que cortam a Garrett, há a do Sacramento, que os levará ao Convento do Carmo, quase que totalmente destruído pelo terremoto/maremoto de 1755. Templos católicos são muitos. Subindo a Garrett, há o Largo Luís de Camões e, continuando, a Rua do Loreto, onde se pode comer na Manteigaria, um bom Pastel de Belém e tomar um ótimo café de máquina (porém, o melhor Pastel de Belém é degustado no próprio Belém, com 15% a menos de açúcar e cuja fila enorme para comprá-lo se vence em 3 minutos). Logo ali, na Rua do Loreto, há um cinema de arte, o Cine Ideal, uma graça de sala e com bons filmes. Na Rua da Misericórdia, a Igreja de São Roque, um belo templo católico, com um belíssimo e pequeno Museu de Arte Sacra. Ainda no Chiado: os Museus do Chiado e o Largo de São Carlos, com o importante teatro do mesmo nome (de fins do século XVIII) e o prédio em que nasceu, em 1888, Fernando António Nogueira Pessoa.

Pegado ao Hotel, vocês terão a Rua Duque de Palmela, com um bom restaurante para Jantar, o DUK. Do outro lado, próximo ao Hotel Dom Carlos Park, há um ótimo chinês: almoço buffet – bom e barato.

Do seu Hotel, caminha-se pela Rua Braamcamp e chega-se ao Largo do Rato. Sobe-se uma das ladeiras e se chega numa das praças mais lindas de Lisboa: a das Amoreiras, com Arcos, Capela e a Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva. Próximo dali, fica o Restaurante Águas Livres, com comida boa e barata. Nada posso dizer de vinhos, mas disseram-me que valem o que dizem: que são ótimos e baratos e há muitas lojas onde se pode comprá-los.

Caminhando-se pela Rua Augusta (que sai da Praça D. Pedro IV, que abriga o Teatro Dona Maria II, rainha de Portugal que nasceu no Rio de Janeiro) chega-se à bela e majestosa Praça do Comércio (Terreiro do Paço), que dá para o Tejo! Vejam o Rio bem de perto. Ali, há o Martinho da Arcada, restaurante frequentado por Fernando Pessoa e Turma de modernistas portugueses.

Belém: é, em verdade, um complexo: Jerônimos – o Templo e o Claustro são imperdíveis. A Torre de Belém. O Museu dos Coches: prédios velho e novo (projeto do Escritório Paulo Mendes da Rocha). Caminhada. Centro Cultural do Belém, com a Coleção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea. MAAT (Museu de Arte, Arquitetura, Tecnologia). A pastelaria onde se come o melhor Pastel de Belém, em Lisboa.

Museu Nacional de Arte Antiga: tem o mais belo dos Bosch, Nuno Gonçalves e alguns outros. Expõe bem esculturas. É ótimo para quem ama os objetos.

Museu do Oriente (a caminho do Belém).

Fundação Calouste Gulbenkian: o prédio principal está com uma magnífica exposição de Almada Negreiros, um multiartista do Modernismo lusitano. A Fundação tem muitos e ótimos títulos (livros) à venda e a bom preço. O Museu: vale a pena, pois possui obras que justificam uma visita. Haverá outras mostras na Fundação, cuja visita dependerá da sua disponibilidade de tempo.

Oceanário de Lisboa: magnífico!

Torre do Tombo: talvez valha uma visita.

Museu do Azulejo que, além da azulejaria, possui uma capela magnífica.

Do Chiado, vai-se ao Bairro Alto, com suas ruas estreitas e vida noturna agitada. Possui a Praça do Príncipe Real, a Avenida D. Pedro V e o Miradouro São Pedro de Alcântara, de onde Lisboa fica ainda mais bela.

Sé de Lisboa.

Alfama: um bairro de estrutura medieval e com muitos restaurantes e casas de Fado. Na Rua do Jasmim, há um pequeno restaurante vegano (ótimo): The Food Temple.

Castelo de São Jorge: ligado às origens da cidade. Vale a pena.

Supermercados:

El Corte Inglés (espécie de superloja de departamentos)

Centro de Compras das Amoreiras

Pingo Doce (o mais popular supermercado de Lisboa)

Continente

Jumbo

Há muitos minimercados e quitandas.

Lisboa tem muito mais! Aproveitem!!!

Texto escrito em fins de abril de 2017 para Vilma Maggio e Sigmar, tendo em vista que permaneceriam na cidade por apenas uma semana, no mês de maio.

39. (De São Paulo De Piratininga) Depoimento: 30 de dezembro de 2016

Vi e ouvi, nos anos 1960, durante uma aula, Dona Maud Pires Arruda afirmar que os inventos do Prof. Pardal apenas aguardavam o momento certo para se configurar na Realidade. Do videotexto à Internet, vi e vivi e fui agraciado com a telecomunicação de som-e-imagem, mas sinto-me atropelado pela alta-tecnologia. Vi o nascer do Rock’n’roll, da Bossa Nova, dos Beatles, dos Stones, da Jovem Guarda, da Tropicália, Hendrix e Joplin, descobri a Poesia Concreta, Walter Franco, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Nina Hagen, Arnaldo Antunes. Assisti à revolução na Moda, principalmente a masculina, que liberou aos varões todas as cores do Mundo. Assisti à investida espacial. Vi Godard, o Cinema Novo, Júlio Bressane. Conheci Tarsila do Amaral, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo, José Lino Grünewald, Edgard Braga, Pedro Xisto, Jorge Luis Borges – vi a alguns metros de minha mesa, Julio Cortázar, num bar, em São Paulo. Apurei meu paladar (ele foi-se apurando). Assisti ao crescimento monumental da cidade de São Paulo, nos últimos 50 anos. Co-editei Artéria, revista de poesia experimental. Amei Dalva de Oliveira e Billie Holiday. Ensinei História para um público de pré-adolescentes e adolescentes, que via como protagonistas de uma Nova Era. Vi que as guerras nunca terão fim (infelizmente) e assisti ao fim de umas e os começos de outras tantas. Assisti à Revolução Sexual (pensamental e prática) e fiquei à deriva, dando, outrossim, asas à imaginação (sesso può essere cosa mentale?). Especializei-me em amores-não-correspondidos, mas aprendi a não ser inconveniente para os objetos-de-meu-desejo. Sempre caminhei a passos lentos, quelônicos, mesmo, mas firmes e, ouvindo conselhos, de graça (como sempre), procurei objetivar minha vida. Vi meninos e meninas, meus coetâneos a mergulhar na cannabis e chás-de-cogumelos + álcool e, mesmo não aderindo à tal aventura, cri em sua utopia, respeitei-a, embora considerando a efemeridade da existência e sabendo que o “tempo urge”. Percebi que Felicidade é vocação: ou se tem ou se não a tem, mas é possível administrar a existência, e que o importante é o estar-bem-no-mundo. Desde 1970, ano em que vim morar em São Paulo, estive 650 vezes em Pirajuí, a São Sebastião do Pouso Alegre. Vi a ascensão do movimento feminista no Brasil: a era das mulheres-cabeça, muito embora muito ainda falte para uma melhoria de facto, mas o empoderamento feminino é algo concreto – sempre estive rodeado de mulheres admiráveis. Tenho assistido à luta dos afrodescendentes, numa sociedade hipócrita, que camufla a discriminação – necessário batalhar. Fiz amizades que me são caras, sendo que algumas já duram mais de meio século. Descobri que viajar é bom e que em todo o mundo se pratica sexo, com fins recreativos e de reprodução. Escolhi a Docência como profissão e lecionei em todos os níveis: do Infantil à Pós-Graduação. Aprendi muito com meus alunos e alunas dos Ensinos Fundamental, Médio e Superior e concluí que não se impõe alto-repertório, mas se o sugere. Perdi muitos entes queridos: pai e mãe, tios-tias, primos-primas, amigos-amigas. Passei por uma cirurgia em grande estilo: foi-me implantada uma Mitral metálica, tendo sido os médicos muito generosos comigo e, desde então, sou meio-biônico. Percebi que, no momento em que nosso paladar mais se aprimora, é o momento de fecharmos a boca e que o segredo da boa saúde é a parcimônia no comer. E notei que estou dobrando o Cabo-da-Boa-Esperança e o meu País, o Brasil, continua a perder o Bonde da História. Meu Deus, até quando? Meninos, meninas: eu vi… XAIPE!

Publicado no Facebook, em 30 de dezembro de 2016.

38. (De São Paulo de Piratininga) O Aster, um Centro de Estudos Teórico-Práticos das Artes

ASTER . ARTES O Aster não foi propriamente uma escola, como comumente a entendemos, nem quis assim se chamar, mas um centro de estudos práticos e teóricos das Artes, que contou com mestres de primeira categoria. Existiu na cidade de São Paulo, de meados de 1978 a meados de 1981 e teve como fundadores e instrutores permanentes artistas e críticos/professores de arte: Julio Plaza, Regina Silveira, Donato Ferrari e Walter Zanini, contando, ainda, com a colaboração de Nelson Leirner, Décio Pignatari, Vilém Flusser, entre outros tantos. Cabem-lhe as palavras-chave: Ensino das Artes, Artes Plásticas, Intersemioticidade (Interdisciplinaridade), Estudos Teóricos, Liberdade e Rigor.

Aster foi uma espécie de centro de estudos teóricos e práticos das artes, que funcionou durante um relativamente curto período (cerca de três anos) na cidade de São Paulo, à Rua Cardoso de Almeida 2289, nas Perdizes, em casa que antes havia sido habitada por Miriam Chiaverini, seu então marido Donato Ferrari e os filhos Lorenzo e os gêmeos Cristiano e Igor (que foram meus alunos na escola infantil e de primeiro grau Pequeno Príncipe, na segunda metade dos anos 1970). Miriam foi quem me encaminhou à FAAP para que aprendesse, como ouvinte, em seu curso de serigrafia – era assistida, na docência, por Paulo Guedes – técnica que me entusiasmou, dadas as possibilidades que oferecia para uma impressão de boa qualidade e a baixo custo, pb ou com uso de cores. Bem, mas voltemos ao Aster. Tal escola foi organizada com o propósito de ensinar técnicas, que iam da litografia à arte do vídeo (e lá esteve ensinando, independentemente, Roberto Sandoval, assistido pela sua então namorada Renata Padovan de Barros), passando por cursos teóricos de curta duração, envolvendo história e filosofia da Arte, Comunicação e Semiótica (ministraram cursos: Walter Zanini, Décio Pignatari, Paulo Leminski, Wilém Flusser, Nelson Leirner e outros tantos). “ASTER é um espaço para a produção artística: pensar/fazer arte. Seus objetivos dirigem-se a atividades docentes e a atividades de pesquisa no campo da arte. Enquanto centro de estudos para o ensino, ASTER tem por fim o conhecimento teórico e teórico-prático das artes visuais, através de cursos organizados e atividades – orientadas em atelier, de modo a possibilitar tanto a introdução como o desenvolvimento, em profundidade, do pensamento artístico e de projetos em linguagem visual. Como centro endereçado ao desempenho profissional, ASTER se propõe realizar trabalhos de assessoria artística, a nível teórico e prático, a exemplo de projetos e edições experimentais, bem como constituir-se num ambiente de eventos diversificados, para encontros e apresentações.” Assim é que tinha início o documento de fundação e lançamento do centro – uma escola muito especial – Aster (= estrela em latim, mas que em português anagramatiza-se em Artes, como, por meio de setas, já indiciava o seu logo) e apresentava os membros responsáveis: Donato Ferrari, Dolores Helou, Julio Plaza, Regina Silveira e Walter Zanini (que havia sido, além de insigne professor de História da Arte, o primeiro e mais importante diretor do MAC-USP. Sua gestão deixou marcas ainda perceptíveis na arte de São Paulo). Na época, o professor Walter Zanini desenvolvia pesquisa e organização dos dois volumes de sua História Geral da Arte no Brasil, que viriam a ser publicados pelo Instituto Moreira Salles. Do segundo semestre de 1978 ao primeiro de 1981, o Aster funcionou, mais bem que mal (sempre se recente da falta de um administrador honesto para gerir as finanças e organizar as coisas e penso que, em boa parte, foi este o caso) e foi pena que deixou de existir. Enquanto eu o frequentei para fazer um curso de litografia com Paulo Guedes, Paulo Miranda (estávamos envolvidos na feitura de uma nova publicação: Zero à Esquerda) foi aprender serigrafia, com Omar Guedes (falecido prematuramente em 1989. Talvez o maior serígrafo do Brasil à época. Fina sensibilidade artística. Pessoa como poucas.) e esta troca de nomes rendeu, na época, alguns lances bem-humorados. Paulo Miranda aprendeu tão bem, que chegou a ensinar os primeiros rudimentos da técnica a José Luiz Valero (na época, residindo em Presidente Alves) e até escreveu um brevíssimo e útil manual de serigrafia: um escrito belo e competente, e espirituoso. Zero à Esquerda, imprimimos no Aster, utilizando – mediante a devida remuneração – atelier livre, e foram muitas e muitas horas de trabalho duro, mas divertido. Cidinha, espécie de assistente de Julio Plaza e Regina Silveira, supervisionava as nossas sessões (lembro-me de que ela se entusiasmara com jogos verbais e até chegou a cunhar um “ela bela : belo elo”). Filmagens (em vídeo) da finalização da revista foram feitas lá, bem porque o empacotamento acabou sendo feito em casa do Paulo Miranda, à rua Doutor Villanova, naquela época. O Aster realizou muitos cursos e mini-cursos. Por lá passaram muitos artistas e alunos que se tornaram gente de prestígio. A divulgação das atividades da escola era precária – problemas com a veiculação de material impresso – porém, cartões, cartazes e cartazetes, criados, penso, que em sua maior parte, por Julio Plaza, eram um primor de arte gráfica e de inteligência artística (tive o privilégio de receber em casa todo aquele material e lembro, aqui, um cartão belíssimo de fim-começo-de-ano: HAJA LUZ EM 1980 – ideia de Paulo Leminski – que deixava transbordar a claridade sobre o destinatário). Estivemos – eu, Paulo Miranda e Sonia Fontanezi (ex-aluna da FAAP, curso de Artes Plásticas, e que ali reencontrava os antigos mestres) – no Aster, mais do que quaisquer outros alunos. A nós, juntava-se todo um pessoal envolvido na feitura de Zero à Esquerda, revista-álbum feita quase toda em serigrafia: Walter Silveira, Zéluiz e Carlos Valero (raramente), Tadeu Jungle. Fizemos uma tiragem de 500 exemplares da revista, sendo que cada trabalho chegava à tiragem de 550 ou 600 exemplares (e isto ia mais pelo perfeccionismo de Paulo Miranda). Essa época marca uma das melhores de nossas vidas, tenho a certeza. A casa onde funcionou o Aster ainda está lá, com pequenas modificações, no limite de Perdizes com Pacaembu. O Aster sempre me lembrará as grandes pessoas que por lá passaram e que, em sua maioria, eram meus amigos. De lá ficaram alguns dos trabalhos mais importantes de poesia intersemiótica e que fizeram parte da revista Zero à Esquerda ou funcionaram como edições autônomas, como foi o caso do Hitchcock, de Walter Silveira. Esse pequeno e importante capítulo das artes em São Paulo, que foi o Aster em funcionamento, merecerá um bom estudo avaliativo. Que venha e aconteça!

Publicado n’O Alfinete, Pirajuí, de 05 de junho de 2004.

Mário no ASTER. Quando fiz o registro escrito sobre o Aster (o centro de estudos teóricos e práticos das artes) nesta coluna – e a casa que leva o número 2289 da Cardoso de Almeida, nas Perdizes ainda lá está – esqueci-me de uma figura proeminente, espécie de zelador-auxiliar-de-ensino-técnico, que veio do Nordeste (Pernambuco), trazido pelo irmão Antônio, que era ajudante-técnico de Julio Pacello (o famoso gráfico, que executou edições de gente como Julio Plaza, Regina Silveira, entre outros). Pois é, Mário Albuquerque (irmão, também, de Severina, que trabalhou até bem pouco tempo em casa de Regina Silveira, tendo-se aposentado) era muito inteligente e interessado e passou a ser assistente-técnico de gravura, muito competente, por sinal. Quando o Aster fechou (existiu de meados de 1978 a meados de 1981), Regina Silveira o encaminhou para a Universidade de Caxias do Sul, através da artista Diana Domingues, onde está até hoje. Mário era a gentileza em pessoa, de uma educação rara e esteve sempre presente no tempo em que a equipe da Nomuque Edições, ocupada principalmente com a feitura de Zero à Esquerda, lá trabalhava. Lendo meu artigo n’O Alfinete, Regina Silveira logo me falou: “Você se esqueceu do Mário!” De fato: ele deveria ter sido citado e aqui e agora eu o faço. Mário, inteligente como era, estudou e adquiriu um repertório apreciável no que respeita a gravura. No tempo de Aster: uma conduta irrepreensível, um diplomata: sabia o comportamento exato, assim como a palavra, para as diferentes situações. Mário: parte importante da história do Aster. [Mário Albuquerque: espécie de factótum no Aster.]

Publicado n’O Alfinete, Pirajuí, em 25 de setembro de 2004.

 

37. (De São Paulo de Piratininga) Memorial : Livre-Docência . 2007

O lugar onde eu nasci nasceu-me

[…]

Décio Pignatari

No universo de Eros, colecionei derrotas cartaginesas, obtive diversas vitórias dePirro, cheguei até a ganhar alguns presentes de grego. No final das contas, entre per­das e ganhos estou, por inteiro, salvo e carente.

Dr. Ângelo Monaqueu

[…]

O que em mim sente ‘stá pensando.

[…]

F. Pessoa

 

Há um eu em mim que já morreu…

Dr. Ângelo Monaqueu

Sou um descendente em linha direta de Abraão. Isto não me faz melhor nem pior que ninguém. É só uma constatação. Eu só quero dizer que a árvore genealógica à qual pertenço chega ao Patriarca. Todos chegam até lá e mais além, só que eu sei de minhas origens. […] Trazia as marcas de uma cultura milenar: o mundo semítico, que não era apenas dos judeus. Também dos de cultura árabe, mesmo que não-islâmi­ca. Família cristã: grega-ortodoxa. Sem problemas com a Igreja Católica, na qual fui batizado. Isso tudo, sem esquecer a parte fenícia, que me faz parente não só do herói Édipo, como do deus Dioniso!

Omar Khouri. De uma crônica

I. SITUANDO-ME…

Nasci no pós-Segunda Guerra Mundial, em Pirajuí, antiga São Sebastião do Pouso Alegre, cidade localizada na Região Noroeste do Estado de São Paulo e que tem tudo a ver com a hoje decadente-quase-morta Estrada-de-Ferro NOB que, partindo de Bauru e chegando ao então Mato Grosso, adentrava o ter­ritório boliviano. Pirajuí significa, em Tupi, “Rio do Peixe Dourado”; o rio, aí, cor­responde ao ‘hy’ da grafia antiga = ‘água’ (Pirajuhy), o que não há na sua quase homônima Piraju, que fica lá pelos lados de Ipauçu e Ourinhos, pelas bandas do Paranapanema, divisa de SP com Paraná.

A pequena cidade, que já foi o maior município cafeeiro do mundo, situa-se, para ficar bem claro, entre Presidente Alves e Guarantã. Se for necessária maior clareza, direi: situa-se entre Bauru e Lins, ao longo da Rodovia Marechal Ron­don, o que sinaliza a desimportância da ferrovia para a região, de algumas déca­das para cá (e pensar que cidades nasceram em função da expansão cafeeira que, às vezes, foi até precedida pela implantação da ferrovia…).

Nascente em fins do século XIX e inícios do XX, só adquiriu foro de Município em 1915, a São Sebastião do Pouso Alegre. Pirajuí: não era assim que os índios da região, que nem eram do grupo Tupi, a chamavam. Nome pós-posto pelo “civilizador” consultando vocabulário Tupi, como aconteceu com muitos outros municípios brasileiros, não todos. Os Caingangues, não sabiam do seu futuro o que aconteceria ali: foram quase extintos (em Avaí, pequena cidade situada ao lado, há uma fazenda-reserva indígena supervisionada pela FUNAI).

Pirajuí, nas primeiras décadas do século passado, nascente e próspera, era uma espécie de miniatura da capital do Estado, com gente vinda de todas as partes do mundo: do Extremo-Oriente às Europas Oriental e Centro-Ocidental, passan­do pelas margens do Mediterrâneo Oriental, onde se localizava a Antiga Fení­cia, hoje Líbano, terra de meus avós maternos e de meu pai. O fato de a região médio-oriental estar (ficou até 1918) sob o domínio do Império Turco, fez com que, por um equívoco – pois se trata de uma outra etnia – os árabes libaneses e também sírios (semitas, por um lado descendentes em linha direta de Abraão) fossem chamados de ‘turcos’, coisa que os descendentes, até hoje têm de ar­rastar: … essa pecha. Ah!

Além do nome forjado, a cidade passou pela imposição de um plano urbanístico que lhe dá singularidade – terra de ladeiras que é (via que sobe, via que desce: uma-e-a-mesma: Heráclito de Éfeso. Dependendo de onde se encontre: dificul­dade ou facilidade) – um plano ortogonal, com quarteirões regulares de 100 X 100 m.

Meu avô Rachid Cury (meu pai era Khouri: a mesma cousa em árabe, grafias diferentes para padre na língua de Gibran, vocábulo que se inicia com aspiração e indicia a prática do Cristianismo), chamado Chico Turco, abriu loja em Pirajuí, em 1912 (é o que consta nos registros da Associação Comercial de São Paulo). Fez fortuna, sofreu três golpes financeiros, sendo um de grande monta. Caiu em pé, mas caiu. Isto gerou uma espécie de acovardamento, na família, para os negócios, agravado pela sua autoridade castradora (acentuada pelo seu nervo­sismo após os revezes financeiros, mais o aparecimento e agravamento de um diabetes que o levaria à mutilação e à morte mais ou menos prematura).

Numa família que chegou a ter doze filhos, os hóspedes temporários eram uma constante: parentes mais ou menos próximos, vindos do Líbano e que na casa ficavam de três meses a três anos ou mais. A casa foi sendo construída aos pou­cos e ainda está lá – e dá a idéia do que imagino ter sido o palácio de Minos, o labirinto de Creta. Chegou a ter onze dormitórios e duas cozinhas, sendo uma caipira, com fogão a lenha e tudo o mais, dois pátios internos, sendo um coberto, salas, um quintal, loja acoplada – secos e molhados, como se dizia: vendia de tudo: de sardinha salgada a tecidos, passando por gasolina. Pé-direito altíssimo (deveria ser uma exigência da ‘Saúde Pública’, dado o calor da região): 5 metros. Portas e janelas imensas. Olhando uma daquelas portas, um alienígena diria: “Aqui moram gigantes!” Hoje, a casa, mesmo inteira, passou por reformas par­ciais que, em tudo, contribuíram para descaracterizá-la (as antigas decorações picturais foram removidas ou remontadas): foi toda uma operação de “kitschiza­ção” em nome do conforto da vida moderna, assim como ocorreu com quase todas as casas velhas que sobreviveram às demolições, em Pirajuí e região. A grande mesa onde centenas de pessoas tomaram suas refeições – e os convida­dos, durante décadas, eram diários – ainda está lá e, de quando em vez, ainda é ativada pelas minhas duas tias solteiras que moram na casa. Esse costume de receber pessoas oferecendo-lhes comida – lembranças da época das caravanas de comerciantes? – parece que herdei daí.

Minha mãe era a mais bela das filhas de meus avós e por demais prestimosa: nascida em Pirajuí, em 1925, Salme Cury (consta no registro de nascimento, como queria meu avô; Odete no dia-a-dia, como queria minha avó), desde muito pequena auxiliava a mãe em muitos dos afazeres domésticos e, aos doze anos, já se podia deixar a cozinha em suas mãos: mãos e cérebro que praticariam essa alquimia da culinária por mais de 65 anos, produzindo maravilhas! Cozia para deuses – doce ilusão! Ambrosia. Pouco estudada (o estudo, além de lei­tura e operações aritméticas, não era valorizado em casa de seu pai), possuía e possui um português correto, além de falar o árabe correntemente. Gostava muito de ler, principalmente crônicas, o que fez muitas vezes para filhos atentos. Cantava por tristeza e nervosismo, sempre músicas incomuns e até hoje, como quando recentemente a surpreendi cantando num francês correto uma velha e triste canção. Costumava cantar “The last rose of summer” (célebre canção de origem irlandesa, de poema de Thomas Moore), porém numa versão portuguesa (derradeira rosa de verão / tu iluminas o meu jardim / já murcharam tuas com­panheiras…), e aquilo me matava jun(s)tamente… de tristeza.

Conduta caseira exemplar desde menina, acabou por engrossar a delgada es­tirpe de mulheres-filantropos-excepcionais da família, assim como minha avó Lula e minha tia Salime (tão educada que, poucas horas antes de morrer, no hospital em Pederneiras, pediu-me desculpas por não poder me dar atenção, pois, sedada, não conseguia conter o sono): nascidas para servir, antes ao outro que a si próprias – minha mãe nunca se sentava à mesa. Antes, servia, saciando a fome de todos, com ou sem visitas, e assim era nas ocasiões raras em que meu pai trazia convidados e ela, sozinha, preparava raros jantares que até hoje não me saem da memória. Encarnando a imagem da mãe-santa, ela sempre o foi sob muitos aspectos: mulher-de-um-só-casamento, mãe-acima-de-tudo, os-outros-antes-de-si. Tanto que, nas raras vezes em que a surpreendo numa mal­dadezinha – direito a que todos têm e não exercem por se auto-reprimirem – ou numa quase-mesquinheza, ela que é toda-generosidade, fico chocado e só o pensar que ela também é humana me tira do estado de estupefação.

De seus inúmeros pretendentes, todos de origem árabe-libanesa (ela, hoje, so­brevivente a todos, o que colabora para provar que as mulheres, via de regra, duram mais), acabou optando por aquele que seria meu pai – Sáber, nome que significa em árabe ‘ser paciente’ (e ele o era), e que pessoas comuns, aqui no Brasil, jamais pronunciaram de modo aceitável. Tendo nascido no sul do Líbano em 1914, desembarcou com um irmão e dois primos, em 1º de fevereiro de 1930, em Santos, radicando-se no interior do Estado de São Paulo, onde foi hospedado por irmãos que aqui já se encontravam. Meus pais se casaram em Pirajuí, com padre da Igreja Grega-Ortodoxa levado de São Paulo e tudo o mais, em outubro de 1945.

Sou o segundo de cinco filhos homens, e fui dado à luz em casa de meus avós – assim como meu irmão mais velho – na madrugada do dia 21 de junho de 1948. Mais tarde fiquei sabendo que, do 21 de junho, também eram Machado de Assis (autor do livro que eu gostaria de ter escrito: Memórias Póstumas de Brás Cu­bas) e Jean-Paul Sartre (cuja obra ficcional li e gostei muito, numa época em que era menos exigente, sendo que o seu autobiográfico As Palavras li depois de trinta anos de tê-lo adquirido e o detestei). Este último, uma de minhas fixações da adolescência que, durante o curso Clássico, mereceu uma campanha pró: LEIA SARTRE, para provocar mestres conservadores (excelentes professores, diga-se), que achavam que mocinhos, meninotes ainda não possuíam maturi­dade intelectual para lê-lo. O primeiro, Machado! – sempre o primeiro – continua a habitar a minha psiqué de modo denso e paradigmal: aqui e ali tento ver em mim aspectos dele (sonhar não é proibido). De qualquer modo, é um escritor que, muitíssimo bom, vai ficando melhor ainda, quanto mais se nos passam os anos. Também, com colegas, desencadeei a campanha VEJA A ARTE COM BONS OLHOS – a favor da representação do nu nas Artes Plásticas! – que foi completada com uma exposição no Salão Nobre do IEDAP (Instituto de Educa­ção ‘Dr. Alfredo Pujol’). Com toda a revolução das Artes, em plena época da Arte Conceitual, eu ainda estava preocupado com figurativismo!

Eu, o mais feminino dos filhos de meus pais – todos do sexo masculino – chamar-me-ia Omar Cury e Khouri. Porém, para evitar redundância, passei a me chamar Omar Khouri, suprimido o nome de minha mãe; o pré-nome, mais comum entre árabes muçulmanos, aceitei com a maior boa-vontade, assim que despertei para uma vida mais conseqüente e, sabendo que poderia significar “o de longa vida”, “construtor” e “o de boas palavras”, optei pelas três interpretações!

Preconceito foi algo que sofri desde muito cedo, porém, a palavra vim a co-nhecer bem mais tarde. Desde pequeno quiseram me fazer crer que, em sendo descendente de árabes – que no Brasil são chamados TURCOS, assim como na Argentina, disse-me Borges, o Jorge Luis, o escritor autor do ALEF, o filho de dona Leonor Acevedo de Borges – eu era diferente: vinha de uma família perten­cente a uma etnia que comia criancinhas (depois eu vim a saber que os comunis-tas também), possuía traços diferentes, olhos grandes, nariz enorme – nariz de tucano (a ave ela-mesma) como cheguei a ouvir inúmeras vezes. No mais, era um comedor de quibe! Essa parte do quibe é a melhor…

De criança semi-prodígio a ser entristecido: dura adolescência! Não me lembro de uma época em que não desenhasse; tampouco tenho memória de minha alfa­betização. Escola: tudo começou no Jardim de Infância, no Grupo Escolar ‘Olavo Bilac’, de Pirajuí. Porém, meu gosto pela Poesia não vem do ilustre parnasiano, de quem soube primeiramente que batalhou pelo serviço militar obrigatório, o qual nem cheguei a fazer por morar, na época, em zona rural. Isto acabou – cer­tamente – por contribuir para que eu, em meio aos humanos, me sentisse como um extraterrestre. Em verdade eu era detentor de um sopro cardíaco, como se dizia. Depois soube: um prolapso mitral. O médico preferiu fazer valer o primeiro motivo para dispensar-me de ser soldado-da-Pátria. De Bilac soube depois: era o autor da letra do Hino à Bandeira e do soneto que começa assim: “Última flor do Lácio, inculta e bela”… Bem mais tarde é que vim a admitir que o arrogante Bilac, que tinha a forma como fôrma, possuía alguns belíssimos sonetos, memo­ráveis mesmo, como o “Vila Rica”, entre outros tantos.

Lembro-me dos nomes de todas as minhas professoras (meus mestres foram mulheres em cerca de 90%): do Jardim da Infância à Pós-Graduação – de Zélia Genovez a Anna Lia Prado e Lúcia Santaella. Minha primeira professora: Dona Zélia Genovez (ou teria sido dona Bela?), cujo Z de sua assinatura em meu diplo­minha de Jardim da Infância (que até hoje conservo) não me saiu da memória… Primeiro contato mesmo com textos bem escritos foi com as leituras que minha mãe fazia para os filhos – todos em roda – ouvindo com interesse as crônicas de Rachel de Queiroz e David Nasser (mais tarde vim a saber do lado cafajeste desse jornalista-escritor, mas também de suas memoráveis letras de canções, no universo da Música Popular). Primeiramente, achei que seria pintor e, autodi­daticamente, fui-me preparando para o suposto destino, o que era reforçado, durante o ginasial, no encontro com colegas igualmente interessados pelas Artes e nas magníficas aulas da professora Maud Pires Arruda, que teve parte impor­tante em minha educação visual: em suas aulas pude ver, em reproduções, o que de melhor a Humanidade havia feito em termos de Artes Plásticas.

Como eu me achava feio! E era de uma magreza de fazer inveja a qualquer magro (odiei a foto feita em 1969 durante a entrega dos certificados, quando ter­minei o curso Clássico: somente me reconciliei com aquela imagem trinta anos depois, quando o fotógrafo, em liquidação, enviou para minha família aquela foto que estava entre os encalhes da casa comercial: O Foto-Reportagem Volpatto, de Pirajuí. Havia um espelho, em casa de meu tio Pedro Rached, um espelho colocado de tal modo que me iluminava de um jeito que eu me achava bonito, lindo mesmo! Mas era só ali. No mais, tudo me fazia crer que eu era medonho, principalmente quando comparado com os habitantes de minha casa: pais lindos e irmãos – todos homens – igualmente. Até hoje estou em busca do fotógrafo que descubra para mim uma luz ideal, luz esta que faça, do sapo, príncipe, de Woody Allen um Paul Newman!). Um nariz que tanto maior parecia, quanto mais eu crescia e a magreza se impunha. Da composição de Juca Chaves – “Nasal Sensual” – ao famoso poema de Bocage, via a mim mesmo por inteiro. Elegi como meu, o poema do bardo português que, mais tarde viria a mim em forma de poeta do erótico e mesmo do escatológico:

Nariz, nariz e nariz

Nariz que nunca se acaba,

Nariz que se ele desaba

Fará o mundo infeliz!

Nariz que Newton não quis

Descrever-lhe a diagonal,

Nariz de massa infernal,

Que, se o cálculo não erra,

Posto entre o Sol e a Terra

Faria eclipse total.

Uma obra-prima! Ainda faço algo que se iguale a esta peça do luso vate.

Tenho, a partir de então, experimentado a vida-a-um. Se pelo menos houvesse uma morta amada como no Camões lírico ou em Edgar Allan Poe… E, então, se eu pudesse, com Camões, dizer: “Quando de minhas mágoas a comprida…” Basta! Há questões mais importantes no mundo do que a minha incapacidade de encontrar uma cara-metade. Porém, devo falar, mesmo que brevemente, sobre o meu prolapso mitral, que antigamente se dizia simplesmente “sopro”; sopro que me trouxe grandes transtornos e o conhecimento de alguns médicos célebres… além de uma taquicardia que me deixou complexado e medroso, o que atrasou de muitos anos a minha iniciação sexual. Ufa! Porém, só não contava com a ne­cessidade, em janeiro de 2006, de uma cirurgia que implantaria em mim uma vál­vula artificial metálica: era grande o cansaço cardíaco e exames mais detalhados conduziram-me à mesa de operação. Tendo como clínico o Dr. Michel Batlouni e como cirurgião o Dr. Camilo Abdulmassih, podia estar, como estive, tranqüilo e tudo saiu muito bem.

São Paulo: a cidade de meus sonhos! A primeira vez em que estive na Paulicéia foi em 1954, com toda a minha família, menos o irmão Válter, que só nasceria em 1961. Foi tudo um deslumbramento nos meus seis anos de idade: o Pa-lace Hotel na rua Florêncio de Abreu, com o garçom que recolheu o meu prato enquanto que, curioso, observava o movimento da rua de uma das janelas do restaurante, o saguão de um prédio no largo do Paissandu, o Butantã, a praça Buenos Aires em frente à casa de uma tia e a primeira vez em que vi televisão: somente um estranho chuvisco.

MASP, ainda na 7 de Abril, anos 60: uma das experiências mais gratificantes de toda minha vida. De lá para cá, devo ter ido ao museu mais de quatrocentas ve-zes, até para ver um único quadro do pequeno-grande acervo. Depois descobri o MAC-USP, com o núcleo principal do acervo no 3º andar do edifício da Bienal, no Parque do Ibirapuera, época em que seu diretor era o Prof. Walter Zanini: grande gestão!

Sempre pensando na pintura, cursei o colegial Clássico em Pirajuí e ingressei, a seguir, na Faculdade de História da USP (já na Cidade Universitária): era, então, a época da Ditadura Médici, o que repercutia negativamente em tudo: não só no andamento do curso, como no clima geral do País, já que não se viam dis­cussões livres sobre quaisquer assuntos.

A História havia entrado em minha vida por conta de uma História da Arte, e quase cheguei a não tê-la no curso da USP. Angariei conhecimentos – estu­dei muito Modernismo Brasileiro (principalmente no IEB – Instituto de Estudos Brasileiros – que se situava no prédio da Geografia e História, assim como o MAE: Museu de Arqueologia e Etnologia), conquistei amigos.

Época das mais doloridas de minha vida, ainda sofria com a morte prematura de meu pai (o que se deu em abril de 1969), amargava um amor impossível (e isto durante uns 15 anos. Nem sei como suportei o estar-só – “Se eu não vejo”… sobrevivi) e padecia de falta crônica de dinheiro (e só vim a aceitar tê-lo, depois dos quarenta-anos: aí, eu me permiti ter um salário melhor, que fosse além de minhas necessidades primárias).

Aprendi, a duras penas, a ser uma boa pessoa e uma pessoa boa: incapaz de praticar atos atentatórios à integridade físico-espiritual do próximo. Penso ser isto menos fruto de uma bondade interna, que medo da justiça divina. Há mais de quatro décadas não sei o que seja um dia sem dor física, indisposição ou tristeza, porém isto não tem impedido a mim de tirar algum proveito deste pro­cesso incerto chamado vida. Felicidade, para mim, é vocação, não passa pelo sexo, tampouco, pelo dinheiro. Não acredito que o ser humano tenha nascido para ser feliz. Felicidade não é pra quem quer, mas para quem tem a vocação-para-ser-feliz. São raros os humanos que têm essa disposição-para-o-estar-bem-constantemente-no-mundo. Sei que Marcel Duchamp tinha essa capacidade e talvez mais alguns outros. E olha que ele era um hipercivilizado, o que retira 99% de chance do referido estar-bem. No mais, o que nós humanos inteligentes e ilustrados podemos fazer é administrar bem este estar-sendo. Por outro lado, tive muitos momentos de grande contentamento: sempre que conversava sobre as artes ou praticava alguma delas, como professor, em ensino do então 1º grau, como estudante, durante 7 anos, na pós-graduação da PUC-SP e como editor de revistas de poesia. Percebi que, no amor, um curto período de sedução, vale mais, é mais intenso, que qualquer ato que se lhe suceda… Mas que suceda!

Não-ateu, chego a considerar-me um politeísta da nova era e acho mais que interessante o culto católico aos santos – incluindo aí toda a representação por imagens (considero-me não um idólatra, mas um iconófilo) – ressaltando o culto à Virgem-Maria. Como todo bom brasileiro, sou devoto de Nossa Senhora Apa­recida.

Formei-me em História (bacharel e licenciado) e encontrei-me desempregado – foi muitíssimo difícil para mim o verdadeiro encaminhamento profissional, o que só aconteceu através de concursos. Livros: uma de minhas paixões: o possuí-los muito representava e sempre que pude eu os fui comprando até formar uma bi-blioteca razoável. Quem gosta adquire, nem que seja apenas para ter – mal sabe que é uma das piores heranças que se podem deixar, já que toda biblioteca tem a cara de quem a formou e que um herdeiro tomará a herança, não como um presente, mas como um encargo. Há livro que, tendo-o comprado, li-o apenas trinta anos depois (foi o caso do já mencionado As Palavras, de Sartre). Em­presto livros: tive a chance de possuí-los e franqueio minha biblioteca a alunos e amigos. Não coloco mais – faz muito tempo – nome em livros, para que, se al­guém os encontrar, possa deles tomar posse: livros aparentemente sem história, pois sequer admito rabiscá-los ou fazer neles anotações.

Na mesma época em que me formei, fui-me enveredando para o campo da Poe­sia e de uma poesia que valorizava a visualidade, o que tinha tudo a ver comigo: a descoberta da Poesia Concreta foi o fato mais importante de minha vida (for­mação) artística. Isto significa que abandonei a pintura que vinha praticando e isto se deu em 1974, quando pintei um último quadro. Antes, porém, em 1973, havia pintado uma Via-Sacra: as 14 estações em 28 quadros (descobri recente­mente que possuo 27 dos 28 e quase todos em bom estado de conservação).

Minha breve carreira como pintor rendeu-me, pelo menos, uma abordagem crítica consistente de Paulo Miranda, a propósito da tal “Via-Sacra” a qual foi exposta, primeiramente, em Pirajuí, por duas vezes, uma delas na Igreja Nossa Senhora Aparecida, ocasião em que falei sobre, após a celebração de uma missa. Eu a havia pintado em ago./set. de 1973e a expus, a seguir, na então Fundação Educacional de Bauru (absorvida, a seguir, pela UNESP), por convite e esforço de José Eduardo de Luna Cabral e da professora Layr, depois Layrana, pintora. A exposição chamou-se JESUS & OUTROS – pinturas de Omar Khouri. Realizou-se em 1974 e trouxe o tal texto num modesto folder, por mim financiado, impresso em papel barato, numa tipografia pirajuiense (vide ANEXO 1).

No mesmo ano de 1974 publiquei um livrinho de poemas visuais: Jogos e Fazi­mentos, pela editora por mim criada e nunca registrada, a Nomuque Edições. Cheguei a enviar parte dos 53 exemplares a algumas pessoas e tive um retorno até que interessante, como o que me falou dele Augusto de Campos, apontando duas ou três páginas realmente boas. Mais tarde, soube que Haroldo de Campos havia falado sobre mim, considerando o livrinho, que era “aresta e seda”. Hoje, penso que o melhor do livrinho seja o título e o poema visual “Soneto”, que ela­borei a partir de uma foto da professora Maud Pires Arruda. Porém, o livro me favoreceu na conquista de belas amizades e me abriu caminho para o afazer de editor de revistas de poesia (ARTÉRIA, ZERO À ESQUERDA…), uma das minhas fontes de prazer.

Da poesia visual – intersemiótica, eu diria – cheguei à verbal, adquirindo pleno conhecimento do manejar a estrutura-verso (caminho inverso do de meus ído­los). Tentei, também, uma prosa experimental, que me rendeu vários pequenos livros-objeto, como os da série De Amor e Merda, assinados por uma espécie de alter-ego denominado Dr. Ângelo Monaqueu (Mensageiro Solitário). Na época (anos 90), escrevi – sem que me solicitassem – um depoimento, cuja publicação foi recusada em duas ocasiões e hoje até penso que as recusas tenham sido justas: é preciso reformular o texto.

Planejei, com José Luiz Valero Figueiredo, uma exposição em Bauru, a qual não aconteceu. Segue o tal projeto:

Exposição de pranchas do ‘Livro do Dr. Ângelo Monaqueu’ : Bauru . 1997.

  1. 16 pranchas, considerando os quatro volumes do De Amor e Merda, as quais terão o dobro do tamanho, sendo a parte de texto cerrado reestruturada em fun­ção da maneira como as pranchas serão expostas.
  2. Texto de 20 linhas sobre projeto/apresentação da exposição.
  3. Pranchas estarão protegidas por acrílico.
  4. Curadoria: José Luiz Valero Figueiredo. Apresentação: Prof. Omar Khouri.
  5. Feitura de convites/release: divulgação.
  6. Conferência de abertura, versando sobre o projeto do livro e sobre o que cons-ta especificamente da exposição.

Em Curitiba, havia feito um lançamento sui generis do livro:

Curitiba, maio de 1996, dentro da programação do PERHAPPINESS VIII

Instrutor: Omar Khouri

Poderia ser feito o lançamento da obra do Dr. Ângelo Monaqueu – De Amor e Merda – em Curitiba. Seria um lançamento diferente: quem comparecesse, apenas poderia apreciar os três volumes, sem pensar em adquiri-los, pois não existiriam exemplares disponíveis para venda. Os três exemplares utilizados para o lançamento seriam encaminhados a uma das bibliotecas da cidade. O depoimento que estou enviando, se publicado, informará os interessados sobre o projeto da obra, que é apresentada pelo Prof. Omar Khouri.

Foi o que, de fato, ocorreu (eram, então, três volumes). Depois publiquei Poemas: sob a égide de Eros, um livro de poemas eróticos e maledicentes, sendo que cada poema era acompanhado de comentários críticos. Também escrevi um depoimento, que distribuí por ocasião do lançamento da 2ª edição, agora em moldes industriais e depois, continuei a distribuí-lo (vide ANEXO 2).

Daí, saltei para o texto-justificativa – uma simulação de carta – cuja autoria é atribuída à mãe do autor-ficcional Dr. Ângelo Monaqueu (vide ANEXO 3). O quase-total silêncio das mídias fez com que o livro fosse um fracasso de vendas. Caso acontecesse uma boa divulgação, teria o retorno pecuniário necessário para fazer outras edições… O livro espera leitores. Está em busca do leitor ideal, de quem lhe faça uma leitura curiosa, amorosa e com rigor.

Nossa casa brasileira em Pirajuí não cultivou o futebol, já que meu pai não che­gou a gostar do esporte do rei Pelé e nenhum dos filhos chegou a praticá-lo. Somente em ocasiões especiais assistíamos aos jogos, como os das Copas. Em 1958, ocasião da primeira conquista brasileira, seguimos tudo pelo rádio. Ouvi muito rádio em fins dos 50 e inícios dos 60, em casa de minha avó: um Philipps holandês, e eram as rádios Mayrink Veiga e a Bandeirantes. Descobri a Bossa Nova e a amei! Cheguei, muito novo ainda, a ir a bailes só para ouvir o “Samba de uma nota só”, de Jobim-Newton Mendonça, em versão com crooner e grande orquestra (!). Curti bailes, dancei… até os 22 apenas. Carnaval-de-salão: mar­chas, samba e frevo: nesta ordem. Sambas maiores vim a descobrir mais tarde, coisa de ser-intelectualizado. A TV só chegou em Pirajuí lá pelos meados dos anos 60, o que me permitiu assistir a alguns festivais, que ficaram célebres. Daí é que vi muito cinema e muita coisa boa que passava principalmente nas sessões noturnas das terças-feiras: Bergman, Antonionni, Fellini, Hitchcock (o único cineasta que justificaria uma volta ao interesse… para re-assistir aos seus filmes). Da Bossa nova fui seguindo a MPB, passando pela Tropicália (e salve Rogério Duprat!), Walter Franco, Arrigo Barnabé, até Arnaldo Antunes. Con­comitantemente, Beatles e toda a onda internacional a partir de inícios dos 60. Da música erudita, inúmeros compositores: rádio, discos, audições que tinham lugar na cidade, recitais com músicos visitantes. Dos grandes nomes da Música, Chopin, sempre, mais Vivaldi, Bach, Mozart, Debussy, Stravinski. Músicos como Satie, Schoenberg, Webern e Cage, só mais tarde vim a conhecer. Não che-guei a ter uma formação musical – o que era comum entre os de classe média em Pirajuí ou qualquer cidade do interior com mais de 15 mil habitantes. Tentei piano, vieram-me com acordeão e, daí, desisti. Álcool não entrava em minha casa. Baralho tampouco, dado o fato de o meu pai ser uma fanático carteador, o que nos trouxe graves problemas de ordem financeira (demorou para que eu vencesse o trauma). Artes Plásticas: sempre! Foram poucas as minhas viagens pelo Brasil e pelo mundo e hoje sinto-me acuado pela conjuntura internacional e a aversão que existe com relação a estrangeiros, a certos estrangeiros: tenho, com isto, evitado constrangimentos em aeroportos.

A metalinguagem escrita melhor a desenvolvi a partir da Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica na PUC-SP. A partir de fins de janeiro de 2000 passei a colaborar como cronista, a pedido de meu amigo Marcelo Pavanato, no se­manário O ALFINETE, coisa que continuo a fazer até os dias de hoje (antes, nos anos 70, havia colaborado bem mais modestamente no CORREIO DE PIRAJUÍ, comandado pelo Sr. Basílio Autran). E, dada a liberdade que sempre tive, tenho escrito sobre tudo o que me interessa, desenvolvendo, às vezes, uma tarefa didática mesmo, e me saíram cerca de trezentos artigos sobre poesia, prosa, artes visuais, cinema, música, ensino, comunicação etc. Foi assim que aprendi a fazer – ainda que para divulgação – prosa metalingüística. De artista plástico (que sonhei vir-a-ser) a poeta-visual e verbal e prosador-experimentador con­taminado pelo vírus da literatura fescenina: larga produção, que procuro veicular quase sempre em pequeníssimas tiragens.

Editei revistas, fui impressor-serígrafo, organizei exposições de poesia interse­miótica. Por diversas ocasiões cheguei a pensar na retomada da pintura e até fiz alguns ensaios, mas ficou nisto. (Ainda não descartei em definitivo a coisa da pintura e até pensei em pseudônimo ou heterônimo).

No campo profissional, encontrei-me ensinando História, para classes de 5ª à 8ª série (uma História impregnada de Artes Plásticas, Poesia e Música) na Rede Pública, nos onze anos que passei em minha primeira escola como professor efe­tivo: EEPG “Almirante Custódio José de Mello”. Foi a época mais feliz de minha vida como professor: eu era feliz e sabia! Esse tempo coincidiu com a pior (talvez) das crises vividas pela Escola Pública, com um suceder de greves e maus-tratos a cargo dos sucessivos governos estaduais. Após uma greve desgastante que durou 86 dias, resolvi retomar a Pós-Graduação na PUC: Comunicação e Semi­ótica (antes havia iniciado Teoria Literária). E tudo aconteceu direto: Mestrado (vide ANEXO 4) e Doutorado (vide ANEXO 5) em sete anos, os mais felizes de minha vida como estudante. Durante o Doutorado é que me iniciei no magistério superior (PUC-SP, Departamento de Arte). Hoje, só trabalho com o Ensino Supe­rior e continuo motivado para levar e receber informações, pesquisar (com vistas às orientações na Pós-Graduação e à Livre-Docência), discutir. Nunca constituiu problema, para mim, a conciliação magistério/produção artística.

Estando quase completamente fora das mídias, como artista, sou um ilustre (se tanto) desconhecido, a não ser por meia centena de aficionados da poesia in­tersemiótica inter- e multimídia. Isto não me desespera, mas também não alegra. Deixei o ensino elementar, como profissional, depois de dedicar-me a ele por mais de vinte e cinco anos (dedicação quase total). Ao exonerar-me do Estado, deixei chocada a funcionária da Diretoria de Ensino, quando lhe disse que os anos em que trabalhei com as crianças e adolescentes haviam sido os mais fe­lizes de minha vida profissional, e que eu os deixava com dor no coração.

Não durmo bem. Há mais de vinte anos. Lembro-me de ter dormido bem – como um anjo – apenas duas vezes nesse tempo todo e isto aconteceu em Bauru, ci­dade da qual até gosto, conheço desde a mais tenra infância, mas pela qual não morro de amores. Dorme-se bem em Bauru. Deixei de fumar há 20 anos (este se constituiu no meu mais notável ato de força de vontade!) Daí, cheguei a engordar mais de 20 kg e remocei na aparência. Nesses anos todos de vida trabalhando, plantei. Penso que somente através da Educação é que um país poderá vir a sair do mais-ou-menos para o bom e o ótimo. Não me casei, nem tive filhos (outros tiveram por mim e eu os respeito e lhes sou grato. Fui, por outro lado, acometido, inúmeras vezes, de paternidade psicológica). Antes, abracei causas: o Ensino, a Edição de Obras, o Exercício da Poesia. Deixo indícios meus pelo Planeta.

Poesia e Pintura/Teoria e Prática: as minhas maiores paixões enquanto ser-in­teligente-e-sensível. Desse nosso Mundo com tantos problemas, adversidades, sou um sobrevivente. Talvez seja esse o meu maior mérito. ΧΑΙΡΕ!

Omar Khouri . São Paulo: novembro de 2007.

        II. ANEXOS: TEXTOS/DOCUMENTOS

  1. Texto de Paulo Miranda em folder para a exposição realizada em Bauru na Fundação Educacional: JESUS & OUTROS, mais especificamente sobre a Via-Sacra. Maio . 1974
  2. POEMAS: sob a égide de Eros. Setembro de 2001
  3. CARTA-ABERTA-DESABAFO-ESCLARECIMENTO DE SALMA BAYOUD MONAQUEU. 2001
  4. DISSERTAÇÃO de Mestrado: resumo. 1992
  5. TESE de Doutorado: resumo. 1996

1

Omar Khouri não pintou a Via-Sacra. Pintou uma Via-Sacra sobre as Vias-Sacras já vistas e aprendidas. Viu, aprendeu, criticou, selecionou e recriou. E fez esse trabalho-monstro com a elegância de quem sabe por onde anda e de onde vem vindo. Também com a dose certa de angústia e desespero de quem não sabe o que vai acontecer – depois da curva…

Na obra de Omar Khouri, essa Via-Sacra encontra-se exatamente numa curva do caminho. Explode ali, deixando para trás talvez uma centena de quadros que pouco a pouco foram se tornando perigosos demais. Cada um exigindo mais do seguinte. Pedindo mais e mais do pintor. Dinamites. E Jesus ateou fogo em tudo. Sobrou um grande ponto de interrogação. Já que a Via-Sacra não é reticente, não exclama nem põe ponto final em coisa alguma. Pergunta – pondo em cheque o futuro na obra do pintor.

Ela é, por certo, um esgotamento de vários sintomas khourianos:

1-) o esgotamento do azul que prova ser, sozinho, suficiente até para contar uma estória. O pintor e a cor, nota-se, são velhos amigos. Amizade que foi, acredito, difícil de conquistar. Mas que na Via-Sacra deixa todos os sinais da vitória: não há monotonia na mono-tonia. Quem vê a Via-Sacra e dela participa, nunca há de desejar outras cores que não aquele azul que a povoa, comovendo, ironizando – sem ao menos ter medo de, tornado mão, apontar uma mancha vermelha que aparece, de repente, feito sangue.

O que fazer agora com esse azul triunfante?

2-) Esgotamento do espaço-tela sobre o qual, até agora, foi dado ao pintor traba-lhar. Não importa qual seja a dimensão da tela – em nenhuma delas as figuras estão “à vontade”. Parecem querer saltar para fora, invadir a parede, ignorando molduras. Não se critica aqui a composição. Longe disso. Ela, em si, é perfeita. Mas as figuras, e só elas, tornaram-se cada vez mais irrequietas, impacientes, insatisfeitas. E na Via-Sacra crescem cada vez mais e ameaçam invadir a sala.

O que fazer agora com essas figuras indomáveis?

3-) Esgotamento dos textos/títulos que foram cada vez mais se incorporando e se comprometendo – perigosamente – com o quadro em si.

Os dizeres nas telas não dão mais só o nome à obra, mas completam a obra, criticam, indicam chamam a atenção do observador, “conversam” com ele. Vão além da obra.

E o observador, por certo, fica um tanto ou quanto confuso com esse dueto de extratos: o visual e o sonoro.

Faz parte da Via-Sacra uma tela especialmente composta para uma personagem que, como todos nós, conhecendo muito bem a história de Jesus, dando por falta de um elemento importante, entra na seqüência e pergunta: “E a Verônica?” O pintor, pintando palavras, responde: “Veja Estação 6- Quadro ‘B’ “ Todos nós ficamos mais calmos, desaparece a tensão. Toda Via-Sacra que se preza tem obrigatoriamente uma Verônica. Esta também. Vamos até à estação indicada, quadro “B” e … para quem escapou ser aquela a Verônica, há uma segunda chance. Viramos a “página” e continuamos. De resto, o pintor usa textos em português, latim e inglês, com inteligência suficiente de quem já percebeu que “LOOK!” tem mais força do que “VEJA!” ou “OLHE!”.

E o que fazer agora com todo esse palavreado que quase nos reporta às legen­das das histórias-em-quadrinhos?

Pois, sem susto, a Via-Sacra de O. Khouri está sempre ameaçando ser nada mais nada menos do que uma história-em-quadrinhos. Pelos “closes” fotográfi­cos, pelo tipo de desenvolvimento da narração, pelo jogo de vai-e-vem de figuras e palavras. E me parece ter sido justamente essa a intenção do autor.

Podemos então criticar, livremente, uma certa infelicidade na escolha das di­versas dimensões de telas usadas pelo pintor. Não deve ter havido um planeja­mento global da obra, antes de ser iniciado o trabalho. E o resultado disso é uma desarmonia em termos de dimensões diversas, aleatoriamente escolhidas para contar tais ou tais episódios.

O conjunto só teria a ganhar, se um planejamento dessa natureza tivesse sido efetuado.

De qualquer maneira, cada quadro, retirado do todo, vale por si só. Tem existên­cia livre e independente. Basta-se. E essa Via-Sacra vale o total da soma de todos esses quadros que, em separado ou em conjunto, contando uma estória são, antes de tudo, belíssimos. “Tutto bellissimo” e “fonctiona”. Ezra Pound, com certeza, gostaria deles.

E agora voltamos à interrogação inicial sobre o que virá depois? Tantos pontos máximos alcançados, tantos aspectos tratados e retrabalhados até o esgota­mento. Do outro lado da curva ninguém sabe o que nos espera. Acredito que nem mesmo o pintor. No entanto, esse desconhecido não mete medo. Venha o que vier, podemos desde já anunciar com certeza que será um trabalho honesto, elegante e de alto nível. Um trabalho como essa Via-Sacra – feito por um artista raro: daqueles que sabem por onde andam e de onde vêm vindo.

Paulo José Ramos de Miranda . São Paulo/Pirajuí . Maio – 1974

2

POEMAS: sob a égide de Eros

Fosse eu espírita e acreditaria ter recebido, durante aqueles três meses e meio – fins de 1996, inícios de 1997 – alguns ilustres poetas já idos e tidos como repre-sentantes máximos da poesia fescenina ou um pouco menos que isto ou nada disto, tais como Mimnermo, Catulo, Marcial, Villon, Aretino, Góngora, Gregório de Mattos, Bocage – sem esquecer a onipresente Safo – assim como o magno bruxo Machado e o finíssimo portenho Jorge Luis, o Borges, prosadores-ficcio-nistas e o furacão-encoberto Pessoa, nas suas várias pessoas, mormente na de Álvaro de Campos; Bandeira e Oswald – brigando – se me apresentaram. Acreditasse, eu, em Platão e me menosprezasse enquanto ser-pensante e diria ter recebido os versos – sim, versos! – de uma entidade, sendo eu um mero meio através do qual ela, a divindade, viria se manifestar. Porém, sei que possuía o repertório, o qual maturou e foi-se enriquecendo durante mais de vinte anos, desde que os latinos Catulo e Marcial foram-me revelados por Luiz Antônio de Figueiredo – Bocage eu já conhecia razoavelmente e os demais – posso dizer – amigos meus conquistados em horas diversas… Foi tudo inspiração, ou seja, um momento privilegiado, de grande facilidade, em que tudo contribuiu para que a obra acontecesse. Foi o momento certo. Intuição informada; ninguém intui do nada: nada vem do nada. Deixei mais uma vez que Dr. Ângelo Monaqueu as­sumisse o meu trabalho. Em verdade, uma metalinguagem sobre poemas fictícios, uma ficção me-talingüística. Os comentários sobre os poemas acabam por formar uma ficção de retalhos – chegando a ter uma certa autonomia. O tema: coisas do erotismo e da maledicência, que dizem respeito menos ao autor e mais – cerca de 95% – a ex­periências a ele narradas por outrem, material que passou por uma elaboração, às vezes pelo crivo de uma poética em que se observam, ainda, procedimentos, como por exemplo, o do metro regular. E o autor se mostra um exímio verse-maker, um virtuose do verso e d’outros recursos que têm caracterizado poemas nos últimos 2700 anos – pelo menos, a partir dos gregos. Aos eus líricos dos poemas, junta-se o eu do comentador que se assume enquanto pessoa: Prof. Omar Khouri. Para mim, pornografia e erotismo são até a mesma coisa: sexo explícito. Não quero ver o erótico como diferente do pornográfico ou o erótico como um mero eufemismo ou como sendo o lado sutil das coisas do Reino de Eros. E nem quero que o pornográfico tenha a ver com o mercadejar do corpo, muito embora isso de prostituição esteja contido na etimologia da palavra PORNOGRAFIA. Gosto de putaria total. Costumo falar em Reino de Eros (de par com Ares, o deus da guerra. Guerra aos malquistos) em que mimos e cacetadas podem conviver naquele universo em que, quem comanda é o corpo, o tesão. Você já ouviu dizer de alguém que anunciasse um livro, filme, poema, peça de sexo implícito? Para mim é só uma questão de elaboração e não propriamente de utilização de um léxico, baixo ou não. Fenda. Aranha. Boceta. Xoxota. Vulva. Chav(b)asca. Peri­gosa. Onde cabe o quê? Eis a questão. O que é a peça enquanto fatura? É isto o que importa. Nunca se sabe do público que lerá o livro. Digo que é um mais-que-bom livro para muitos sexos e idades, mas principalmente para os que possuam a maturidade de depois dos 25 anos. Quem o saberá? O volume, juntamente com muitos outros, forma um corpus significativo dentro do universo das Letras Eróticas, sendo o conjunto, a obra do Dr. Ângelo Monaqueu. Um autor, ainda, quase desconhecido, além de desaparecido, mas que, ao que tudo indica, estará na berlinda, assim que seus trabalhos vierem a ter edições maiores e mais bem distribuídas, como a que ora apresenta a No­muque Edições. XAIPE!

São Paulo, 15 de setembro de 2001.

3

CARTA-ABERTA-DESABAFO-ESCLARECIMENTO DE SALMA BAYOUD MONAQUEU (MÃE DO MESTRE ÂNGELO MONAQUEU) EM QUE DEFENDE O FILHO-AUTOR DE INCOMPREENSÕES DE QUE FOI VÍTIMA POR OCA­SIÃO DA PUBLICAÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO DE POEMAS: SOB A ÉGIDE DE EROS, OBRA POSSIBILITADA PELO ESFORÇO DO PROFESSOR OMAR KHOURI, UM SEU DISCÍPULO, E DA NOMUQUE EDIÇÕES. OUTROSSIM, LAMENTA O QUASE TOTAL SILÊNCIO DAS MÍDIAS – MORMENTE A IM­PRESSA (OS JORNAIS) – SOBRE O REFERIDO LIVRO

Dizes – ó Fidentino – tão mal os meus versos,

Que até parecem os teus…

MARCIAL

Dirijo-me aos possíveis interessados em POESIA para esclarecer alguns pontos da vida-obra de meu filho Ângelo (Monaqueu) – espécie de Brás Cubas paulista-interiorano-cidadão-do-mundo – e de nossa relação familiar envolvendo seu tra­balho de criação literária, do qual – diga-se – nós da família nem tínhamos conhe-cimento. Certa vez, pus fora toda uma gaveta de papéis do então moço, entre os quais muitos manuscritos, já que um rato havia feito no local, além de todo o estrago característico, o favor de morrer – não tive outro jeito, eu que não tolero papelada de qualquer espécie que não tenha utilidade prática ou documental, em minha casa (talvez que se tratasse de material poético, exercícios – quem o saberá?! – porém, eu não tive a curiosidade de bisbilhotar).

Essa minha atitude de agora vem a propósito de críticas canhestras que tem recebido a sua obra e pelo fato dele – Ângelo – estar desaparecido (isto mesmo: desaparecido e não finado, como alguns chegaram a insinuar). Tiro, assim, esse encargo de amigos, que até agora se têm ocupado da publicação da obra rema­nescente e, até então, secreta. Teria Ângelo alguma mágoa da família, família esta que não soube ver em tempo hábil o seu talento para as Letras? De minha parte, durmo tranqüila, pois amo acima de tudo o filho que tenho e que, quase sempre foi uma presença agradável, embora de afetividade comedida. Bem, este é um outro assunto.

Em primeiro lugar, devo dizer que, mesmo estando sempre e sempre ocupada com fazeres e afazeres domésticos em minha casa, inclusive agora, que já me encontro octogenária, não deixei – jamais! – de exercer e exercitar minha inteligência e minha sensibilidade, a qual se manifesta através do canto quando justamente me ocupo das referidas tarefas. Provavelmente isto deva ter interferi­do na formação primeira de meu filho, afetando a sua sensibilidade e, talvez, pre­parando o futuro poeta (se bem que – tudo indicava, ele viria a se dedicar à arte do desenho-pintura). Devo admitir que eu, assim como minhas irmãs, ficamos surpresas com os poemas de Ângelo: embora soubéssemos da grande cultura poética que ele possuía, jamais o imaginávamos capaz de versos e de versos tão bem feitos! Tampouco cogitávamos dele ser capaz de um humor tão acen­tuado! A questão temática em sua obra – provocadora de críticas que chegaram a atingir a família – só tem importância à medida que recebeu o tratamento que recebeu e não por se tratar de sexo em suas várias modalidades, abrangendo regiões sobre as quais as pessoas não gostam de ouvir ou falar (só pensar e fazer). Teria, em pleno início do Terceiro Milênio dC ferido suscetibilidades? Ora, ora, me poupem! Meu filho é um escritor, um ficcionista e, certamente, coletou materiais fornecidos por outrem, os quais ele elaborou, emprestando-lhes a dig­nidade de obras-de-arte. Ângelo é do tempo em que se passava pimenta na boca de criança que dizia palavrões. E ele os dizia. E eu, como mãe, aplicava a tal reprimenda. E não tenho remorso por isto. Era o que era de se fazer naquele tempo e eu fazia. Hoje, até eu admito, ou melhor, permito-me dizer uma que outra vulgaridade ou até mesmo chulice. Por outro lado, com o livro Poemas, Ân­gelo lava a sua alma e se livra de traumas, se é que estes chegaram a existir.

Não me lembro – e consultei alguns doutos – de um livro inteiro, na língua de Camões, que alcance a contundência, ao mesmo tempo que nível de poetici­dade, do conjunto dos poemas do tal livro sob a égide de Eros, como é subti­tulado esse em questão (do qual não se pode prescindir de nada, sequer das orelhas!) inserindo-se no universo fescenino. Se é que isto interessa a ele, a família, eu encabeçando, tem muito orgulho de contar com um poeta como ele é, com seus temas e formas.

Em conversa que tive com uma cunhada, professora universitária como Ângelo, e com um seu colega Túlio MensSana, brotaram comentários interessantes: 1. de como o livro se nos apresenta como uma espécie de manifesto contra a imagem, numa época de saturação da mesma, numa atitude tão parecida com a de iconoclastas (seria uma reação, em verdade, com relação à profusão de ima­gens que podemos observar em Templos Católicos e nos da Igreja Grega Orto­doxa, no seio das quais ele foi criado?) 2. Há como que uma dupla recuperação do Paganismo Antigo: a. enquanto evocação de autores e referências a peças célebres e b. enquanto exacerbação de temática de uma certa poesia grega e latina que celebra algumas das práticas do Reino de Afrodite e Eros.

E para terminar, devo revelar que ele iniciou seus estudos sistemáticos, desde o Jardim da Infância, no Grupo Escolar Olavo Bilac – teria isto algo a ver com seu destino de poeta, embora não-parnasiano? E que os primeiros contatos com a literatura foram, não com poesia propriamente (muito embora a ouvisse cantada por mim) mas com crônicas de Rachel de Queiroz. David Nasser também foi por mim lido para as crianças, Ângelo entre elas. Porém, desde muito cedo, ele passava a apreciar e impressionava-se com os desenhos e textos trabalhados graficamente de Millôr Fernandes: anos mais tarde eu conversava com meu filho sobre quão grande escritor/desenhista era o Milton, um dos maiores de quantos o Brasil já teve, em qualquer tempo, dando até orgulho de se ter nascido neste País. Porém, o que me pareceu de fundamental importância a ele, por volta de fins dos sessenta, começo dos setenta, foi a descoberta do trabalho feito pelos poetas concretistas de São Paulo o que, de qualquer maneira, teve influência em sua vida de crítico, tradutor e fazedor (= poeta).

Reitero a excelência artística da obra de meu filho e agradeço o trabalho daqueles que se empenharam em publicá-la e a atenção dos senhores que me lêem. Uma última palavra: feliz daquele que tiver o acerto de falar sobre esse livro! …

Atenciosamente

Salma Bayoud Monaqueu

São Paulo, 16de outubro de 2001. Pirajuhy, 30 de dezembro de 2001.

PS O livro, até a presente data, tem sido um fracasso na mídia, ou seja, não apa­receu, apenas se insinuou: A TV Cultura de São Paulo noticiou, no METRÓPO­LIS e no MUSIKAOS e o hebdomadário O ALFINETE, noticiou e publicou depoi­mento do Prof. Omar Khouri. Auguri!

PS 2 A Revista G MAGAZINE trouxe, sobre o livro, interessante nota (2002).

4

Dissertação de Mestrado:

Defesa pública em 25 de maio de 1992 (COS-PUCSP). Título: O fenômeno poético na tradição luso-brasileira : amostragem. Aprovação: média DEZ (obtenção do grau de Mestre em Comunicação e Semiótica: Literaturas). Orientadora: Profa. Dra. Lúcia Santaella.

Resumo:

.Encarando a poesia como um “estado” especial da linguagem, considerou-se o fenômeno poético numa tradição idiomática específica: a do Português. Aí, foram detectadas peças onde o referido fenômeno comparece em seu mais alto grau. O método comparativo norteou a escala valorativa para a apreciação de peças e conseqüente seleção para a formação de um corpus poético mínimo em Língua Portuguesa. Nessa apreciação geral, as traduções criativas de poemas foram consideradas como parte integrante do acervo daquela tradição (abarcan­do Portugal e Brasil). Tendo em vista que a quase totalidade das antologias peca pelo excesso e tendo a consciência de que, para um público de não-iniciados, há que se observar uma estratégia especial, foi elaborada uma antologia com um mínimo dos mínimos: apenas vinte e duas peças, porém, um mínimo que traz um máximo de “poeticidade” e com apresentação cuidadosa, visando ao referido público. De Sá de Miranda a Paulo Miranda, procurou-se mostrar que a poesia sempre esteve à vontade na tradição de Língua Portuguesa: do verbal, ao mer­gulho no intersemiótico. Análises não muito exaustivas justificaram as escolhas, as quais poderão sofrer alterações: trocas, acréscimos etc, já que o que não falta é qualidade na tradição poética estudada.

5

Tese de Doutorado:

Defesa pública em 17 de setembro de 1996 (COS-PUCSP). Título: Poesia visual brasileira : uma poesia na era pós-verso. Aprovação: média DEZ (ob­tenção do grau de Doutor em Comunicação e Semiótica: Artes). Orienta­dora: Profa. Dra. Lúcia Santaella.

Resumo:

.POESIA VISUAL BRASILEIRA : UMA POESIA NA ERA PÓS-VERSO trata das manifestações da poesia brasileira a partir dos anos ‘70, daquela produção mais empenhada com a experimentação, tão cara às vanguardas e, particularmente, considerando a herança ainda modernista da Poesia Concreta, principal fonte, importante precursora, formadora de uma “tradição do rigor”. Dentro do que se convencionou chamar Pós-Modernidade, tem-se a ERA PÓS-VERSO, que, em­bora pós, admite a existência da prática do verso, só que diferentemente de outros tempos, em que as seqüências de linhas eurrítmico-eufônicas repousa­vam em rolos de papiro, pergaminhos ou páginas de livros. Essa POESIA VI­SUAL, que melhor seria chamar de INTERSEMIÓTICA MULTI/INTERMÍDIA, é encarada como o que de mais vivo se tem produzido, de duas décadas e meia para cá, no Brasil (que é o que aqui interessa), mas, também, fora – dos ‘70 aos ‘90. Utilizando códigos vários, entre os quais os da visualidade (onde se situa o verbal escrito, quase sempre presente), essa poesia traz também, como marca distintiva, o seu migrar de um meio para outro; este traço lhe é estrutural: o po­ema é pensado assim, já nasce com essa vocação, o exibir-se é parte integrante do seu existir. A Semiótica peirceana, em boa parte, implícita e/ou explicitamente embasa a abordagem, a qual não deixa de lado um enfoque histórico. As RE­VISTAS foram, nessa história, um importante meio de veiculação de poemas; daí a viagem empreendida até essas publicações (considerando apenas o su­porte papel, para esta Tese, especificamente). Dos poetas que se enquadramnesse universo, foram selecionados apenas oito, tidos como “exemplares”, vari­ando o número de peças escolhidas de cada um deles, as quais vêm a formar uma antologia mínima. Poemas são analisados com o intuito de explicitar a sua grandeza, aclarar o caminho de possíveis leitores, demonstrar o como eles cor­respondem àquilo que foi exposto na caracterização geral da POESIA DA ERA PÓS-VERSO. Os poetas da era pós-verso não chegaram a se articular em um grupo como em outros tempos, não chegaram a formar “movimento”, muito em­bora tivessem pontos em comum. O POEMA DA ERA PÓS-VERSO mostra aber-tura em termos de possibilidades do tempo atual, no que diz respeito a códigos e meios. A AMOSTRAGEM MÍNIMA que faz parte da TESE procura antecipar a publicação de uma tão esperada ANTOLOGIA DA POESIA BRASILEIRA DA ERA PÓS-VERSO.

36. (De São Paulo de Piratininga) Aster: uma foto – 1980

Afora a documentação que guardei do Aster, a qual recebia pelo correio (eu residia, então, à Rua Dona Veridiana, 77, ap 103, Santa Cecília. São Paulo cap) ou em mãos, tenho ainda algumas fotos feitas em 1980, como a do Paulo  Miranda e Sonia Fontanezi, desfocada, tirada por mim com uma câmera rudimentar e que aborda os serígrafos segurando o rodo segmentado, que imprimia o azul e o vermelho da bandeira francesa a um só tempo e que foi pensado por Sonia Fontanezi, ideia aprovada por Paulo Miranda, que a realizou, para a impressão de seu trabalho La Vie En (1978) e do qual (-rodo) eu havia duvidado – Julio Plaza ficou espantado ao observar a façanha. O rodo já não mais existe, mas que funcionou, funcionou! E deu certo o imprimir cerca de 550 cópias da bandeira (sendo 500 para que fizessem parte de Zero À Esquerda), prevendo uma margem de erro (ou simplesmente cópias “não-satisfatórias”) de 10%, o que era demais, mas atendia ao perfeccionismo de Paulo, o Miranda. Nada escapava ao controle de qualidade do autor do soneto-fita-métrica, daí o excesso. Até Omar Guedes Abigalil, grande serígrafo, professor de serigrafia de Paulo e amigo de todos nós achava um exagero reprovar um trabalho, por exemplo, que tivesse um chapado e em que aparecia uma falhazinha, um pontinho branco! Ele dizia: “Retoque com uma hidrográfica e pronto.” Mas de nada adiantava. Outra foto interessante, cujo autor é Paulo Miranda (em verdade, tenho cópias reprográficas ruins da mesma, porém legíveis) é a de uma sessão no Aster em que imprimíamos o trabalho de Luiz Antônio de Figueiredo Exercício Cubista e que viria, também, a fazer parte de Zero À Esquerda. Feita, sim, pelo Paulo, que nela não aparece. A mesa de impressão com vácuo, varal contendo cópias do trabalho que está sendo impresso – em pé, Zéluiz Valero recebe uma cópia impressa e Carlos Valero, sentado, se prepara para me passar o papel em branco. Eu, ali, no momento, como impressor, papel que geralmente cabia a Paulo Miranda. Essa foi uma das raras vezes em que Zé e Carlos apareceram no Aster, durante a façanha de impressão de Zero À Esquerda. Era o ano de 1980 e a revista, que se recusou a ser Artéria, para que não houvesse repetição, teve o seu lançamento na discoteca Pauliceia Desvairada, em 6 de maio de 1981, com um espetáculo multimídia, de facto. Na foto, a disposição de nossas cabeças forma um triângulo obtusângulo, tendente ao retângulo. Está todo mundo no auge de suas forças e disposição e… bonito, daquela beleza que é própria dos jovens, muito embora os irmãos Valero-Figueiredo fossem mais bem apessoados que eu. Todos muito atentos no afazer enquanto são fotografados. Geralmente, eu cuidava de parte das gravações pelo processo fotográfico, retoques de matrizes, registro, preparo de tintas, controle do papel a ser impresso, limpeza das matrizes após trabalho de impressão. Mesmo depois de termos trabalhado o dia todo: eu, Paulo e também Sonia Fontanezi, era uma alegria essa labuta noturna no Aster. Havíamos sido alunos da escola, que não quis se chamar “escola”, mas Centro de Estudos: eu havia feito Litografia com Paulo Guedes, Paulo, serigrafia com Omar Guedes [serigrafia eu aprendi com Paulo Guedes, assistente de Miriam Chiaverini e por gentileza dela, na FAAP (1979) – à época, eu era professor dos meninos Ferrari:  Lorenzo, Igor e Cristiano, no Pequeno Príncipe] e mais, Paulo e Sonia fizeram um curso de Vídeo com o jovem Roberto Sandoval que, à época, namorava Renata de Barros [Padovan], e até chegaram, mesmo que à revelia, a participar, com um vídeo, numa Bienal de São Paulo, a XVI (1981). Utilizamos, com muita frequência, o Aster para os trabalhos que constariam de Zero À Esquerda, sendo que para isto pagávamos o que era chamado de “ateliê livre”, o que incluía até os sábados em que a assistente Cidinha ficava de plantão (a jovem deve ter sido aluna de Julio Plaza e Regina Silveira. Circunspecta, pouco falava, mas mostrou-nos um seu ‘poema’, que era assim: ela bela : belo elo e que consideramos muito bom). Eram quase sempre uma festa esses encontros gráficos e, em 1981, quando a revista foi ultimada, Walter Silveira e Tadeu Jungle realizaram um vídeo (há cópia deste trabalho – era a época de início da TVDO) que foi mostrado no lançamento de Zero À Esquerda. A montagem dos exemplares da revista aconteceu no apartamento do Paulo Miranda, à Rua Doutor Villanova, Vila Buarque (Centro). No mesmo ano de 1981, o Aster encerrou suas atividades. Uma pena o desfazimento do belo projeto de escola-de-arte, que não queria ser chamada de “escola”, dado o ranço que a palavra trazia consigo. Tendo funcionado de meados de 1978 a meados de 1981, o Aster foi um centro de estudos práticos e teóricos das Artes Visuais, tendo sido uma espécie de “escola dos sonhos”, norteada pelo rigor com liberdade. Muita gente incrível passou por lá: Julio Plaza, Regina Silveira, Walter Zanini, Donato Ferrari, Paulo Leminski, Décio Pignatari, Villem Flusser, Nélson Leirner, Milton Sogabe, Omar Guedes…

Sala principal do Centro de Estudos de Artes, o Aster, nas Perdizes, São Paulo. Zéluiz Valero, Omar Khouri e Carlos Valero [de Figueiredo] em plena sessão de impressão de trabalho de Luiz Antônio de Figueiredo, que constou de Zero À Esquerda, lançada em 1981. A fotografia, de Paulo Miranda, aqui reproduzida a partir de uma cópia xerox, é de 1980.
Sala principal (de impressão serigráfica) do Centro de Estudos de Artes, o Aster, nas Perdizes, São Paulo. Zéluiz Valero, Omar Khouri e Carlos Valero [de Figueiredo] em plena sessão de impressão de trabalho de Luiz Antônio de Figueiredo, que constou de Zero À Esquerda, lançada em 1981. A fotografia, de Paulo Miranda, aqui reproduzida a partir de uma cópia xerox, é de 1980.

 

35. (De São Paulo de Piratininga) Os dois maiores poetas vivos do Planeta residem em São Paulo

        Não, não se trata de um concurso, desses que se fazem aqui e ali para contemplar pessoas de áreas-mil. Tampouco de uma questiúncula para saber (ainda) quem é a favor ou contra o Concretismo no Brasil. É que, de repente, dei-me conta de que dois de meus amigos de longa data e com quem tenho cada vez menos contato são os maiores poetas-realizadores do Planeta Terra, e mais, residem em São Paulo e bem próximos de mim.
É impressionante pensar no múltiplo e gigantesco legado dos poetas concretos! (Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, principalmente, evitavam ou até mesmo nem permitiam a utilização do termo “concretista”, ou “concretismo”: sem “ismos”, diziam, pois a poesia era Concreta e os poetas, concretos – “a Grande Poesia sempre foi Concreta!” E, embora já muito modificada a Poesia Concreta, os poetas dessa tendência só vieram a admitir que o movimento era coisa encerrada, lá pelos fins dos anos de 1980, começos dos de 1990*. Haroldo de Campos chegou a dizer, em várias ocasiões que, fizesse o que fizesse – um soneto parnasiano, por exemplo – sempre seria chamado de concretista, teria de carregar a pecha para todo o sempre: “O poeta concretista Haroldo de Campos acaba de publicar um soneto”…) Legado no campo da Poesia, propriamente (são co-inventores da Poesia Concreta, termo sugerido por Augusto de Campos, independentemente de um sueco nascido em São Paulo ter falado em Poesia Concreta antes do autor de POETAMENOS – já que existiam Arte Concreta e Música Concreta, por que não uma Poesia Concreta? – e aceito por Eugen Gomringer, que também se liga à origem dessa poesia), no da Teoria/Crítica (foram arrojados, corajosos e preparados para, além de fazerem abordagens críticas, que iam de Mallarmé a Cummings, e de terem reposto em circulação vários poetas, principalmente do Brasil, elaboram manifestos que marcaram a poesia, não só daqui, mas repercutindo fora), no da Tradução de Poesia (sempre entendida como uma categoria da criação, portanto uma re-criação: transcriação, como dizia Haroldo de Campos ou tradução-arte, como preferiu Augusto, também um ‘intradutor’, o que vem a se somar à ‘tridução’ pignatariana). Nas pegadas de Ezra Pound e com uma cultura poética até um pouco mais vasta que a do Mestre (penso que eles não me perdoarão por esta afirmação), empenharam-se na elaboração de um Paideuma, entendido poundianamente como um conjunto mínimo de poemas com o máximo de informação estética, visando a um público de não-iniciados e de iniciantes.
O rigor era tanto e minha assimilação desse rigor foi tal, que eu dificilmente chego a apreciar uma obra que não seja o máximo, que não esteja além da excelência, muito embora eu seja muito tolerante e procure ver a qualidade onde quer que esteja, e isto já é coisa de velho! Esse rigor nas escolhas – e o que define um crítico são as suas escolhas – leva a grandes exclusões, pois, de fato, como já havia colocado Pound, a maior parte do que se escreve (se pinta, se compõe etc) se encaixa no universo da medianidade. Poucos são os que inovam ou que chegam a subverter a tradição dentro da qual atuam. Os concretistas, tendo feito um balanço das contribuições do modernismo mundial, propuseram-se a fazer poesia de invenção… e fizeram!
Mesmo tendo sido um movimento internacional, com larga produção nos anos de 1950 e de 1960, a melhor poesia concreta que se produziu, originou-se no Brasil, e isto as muitas antologias – como a de Emmett Williams e a de Mary Ellen Solt – podem atestar. Acontece que os poetas do Concretismo (o grande Ronaldo Azeredo é quase uma exceção) tinham o domínio do exercício do verso antes, durante (veja-se o hercúleo trabalho de tradução de poemas em versos realizado principalmente pelos irmãos Campos) e depois da Poesia Concreta, e durante décadas realizaram trabalho de altíssimo nível em todos os campos em que atuaram.
Hoje, dos pioneiros a quem se juntaram outros, só restam vivos Décio Pignatari e Augusto de Campos, que ainda atuam artisticamente, sem estardalhaço, porém. Considero que hoje, no Mundo, não há poetas com conjunto de obra que possa se equiparar ao que fizeram esses dois sobreviventes ilustres da poesia de base experimental. Há ótimos poetas, é claro, mas nenhum com obra tão importante e consistente como a dos dois que, sendo dos artistas mais importantes do século XX, adentraram o XXI, ainda com curiosidade. Não vejo Augusto de Campos há uns dois meses, mas tenho dele notícias por amigos e sei que ele trabalha, principalmente com tradução de poesia, diariamente. Ainda hoje (27 jan. 2010) encontrei Décio Pignatari, aqui em São Paulo, na Avenida Angélica, e ele me disse que atualmente só trabalha algumas traduções de poemas. Décio com 82 anos e quase meio. Augusto com menos de um mês para completar 79! Pois é: os dois maiores poetas do Mundo, Décio Pignatari e Augusto de Campos, que honrariam qualquer Literatura ou coisa que o valha estão aí produzindo, vivendo em São Paulo (de volta de Curitiba, Décio re-instalou-se na Paulicéia). God bless the poets!

*A rigor, pode-se dizer que o “movimento da Poesia Concreta”, com crítica militante e tudo o mais, encerra-se logo após a publicação da revista Invenção 5, em 1967. Porém, os integrantes do Grupo Noigandres (Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald, aos quais vieram se somar Edgard Braga e Pedro Xisto de Carvalho) não se dispersaram e continuaram na linha de frente da Poesia Brasileira e Mundial.

Omar Khouri, São Paulo 2010

Texto escrito por mim no 1º semestre de 2010 e publicado no Portal Cronopios, em 02/08/2010 14:41:00

34. (De São Paulo de Piratininga) Augusto de Campos: Poeta

Falar em Augusto de Campos, hoje, é o mesmo que discorrer sobre como é possível (muito embora raro) adentrar os 80 anos em plena forma e produzindo poemas, textos críticos e traduções-recriações poéticas de uma maneira surpreendente, como vem fazendo esse criador desde fins dos anos 1940, mas principalmente a partir dos ‘50. Concreto histórico, é considerado um inventor, ou melhor, co-inventor de um modo que mexeu com as estruturas do fazer poético sendo que, no Brasil, esse movimento entrou como um divisor de águas: o antes e o depois da Poesia Concreta. Mesmo pertencendo a um grupo de vanguarda e seguindo procedimentos firmados pelos integrantes, a poesia de Augusto de Campos sempre apresentou peculiaridades que a fizeram única, desde que, em 1953, elaborou a série Poetamenos, num diálogo íntimo com a música de Anton Webern: o 1º conjunto sistemático de poemas concretos. Em 1955, propôs o nome Poesia Concreta para aquela que estava fazendo, juntamente com seu irmão Haroldo e com Décio Pignatari, o que contou com a concordância de Eugen Gomringer – poeta suíço-boliviano experimentador e que era secretário de Max Bill na Escola Superior da Forma em Ulm, Alemanha, e com quem Décio Pignatari havia entrado em contato. E o movimento tornou-se internacional. O percurso poético de Augusto de Campos é dos mais admiráveis, do pós 2ª Guerra à atualidade, passando por fases distintas, mas mantendo a coerência dentro daquilo que o vinha caracterizando: a originalidade e o rigor, dentro do universo “verbivocovisual”. Alguns de seus poemas já adentraram a corrente sanguínea da sociedade e fazem a alegria de tantos quantos vêm a ser aficionados da arte da palavra, por excelência, da Arte de Augusto de Campos, podemos dizer. Nessas décadas todas de intensa produção poética – peças densas em relativa pequena quantidade – o poeta praticou uma crítica de um aclaramento ímpar, versando principalmente sobre criadores-inventores de época recente, mas resgatando, por outro lado, valores do passado que haviam sido mal lidos ou nem sequer propriamente lidos. Trabalhou em textos que considerava fundamentais da poesia universal, praticando uma tradução criativa (tradução-arte, como tem dito), com o propósito de formar um conjunto significativo, em português, da melhor poesia produzida no mundo. Houve quem dissesse, em Portugal, ser Augusto de Campos o maior tradutor de textos poéticos para a língua portuguesa, de todos os tempos. E, muito embora não tenha optado pela Docência, como alguns companheiros chegaram a fazer, Augusto de Campos desempenhou esse papel didático em muitas conversas que tinha, com gentes de todas a idades, nas incontáveis vezes em que recebeu pessoas interessadas em arte experimental em sua casa, casa esta que teve tanta ou mais importância para a poesia brasileira e as artes em geral que as de Paulo Prado, de Mário de Andrade, de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade e de Dona Olívia Guedes Penteado. Não há hoje, no Planeta, alguém com um conjunto de obra tão significativo como o que produziu, em quase 7 décadas, Augusto de Campos. E esse reconhecimento vem vindo aos poucos, de fora do País e também de dentro. Basta entrar em contato com sua obra para se ver quanta riqueza ela contém em termos de invenção/informação. João Cabral de Melo Neto – poeta mais que consagrado e com relação ao qual havia como que uma unanimidade no Brasil – chegou a dizer, em diversas ocasiões, que o legado da Poesia Concreta havia sido mais importante para o Brasil que o do Modernismo de 22. E, quando João Cabral era estimulado a citar poetas mais jovens, ele citava Augusto de Campos. Este é um dos grandes criadores do século XX, num confronto internacional (como gostava de dizer Décio Pignatari), que adentra, com pleno vigor, o Terceiro Milênio. Salve Augusto de Campos, Poeta!

Omar Khouri . São Paulo julho 2015.

Texto escrito por mim para ser lido por outrem em Congresso acontecido no IA-UNESP, no 2º semestre de 2015, pois eu estava, já, em Lisboa nessa ocasião (Pós-Doc). Augusto de Campos deveria estar presente, mas não pôde fazê-lo.