44. (De São Paulo de Piratininga) Décio Pignatari: breakfast com geleia, osso e medula

Décio Pignatari, munido de um repertório invejável – enquanto abrangência e elevação – possuindo um temperamento polemista e uma criatividade incomum, uma agilidade oswaldiana, com uma enorme capacidade de articulação de idéias + um timbre impositivo, somado a uma dicção perfeita, foi capaz de afirmações, juízos, tiradas, aforismos, que vieram a fazer parte de sua grandeza. Nunca deixou de dar respostas a estímulos, fossem o que fossem, viessem de onde viessem. Criador de expressões/neologismos, tais como produssumo, minorias de massa, signagem (para não usar ‘linguagem’, termo que remeteria quase que necessariamente ao código verbal). Ele é que se referiu à desdiferenciação brasílica quanto a valores como geleia geral. Textualmente: Na geleia geral brasileira alguém tem de exercer as funções de medula e de osso. Das frases mais bem sucedidas de Décio Pignatari, nos anos 1960, época da revista INVENÇÃO e que, usada aqui, ali e acolá, nem sempre é-lhe atribuída a autoria. Isto, Décio disse ao poeta Cassiano Ricardo (um poeta, não sem méritos, mas que esteve na rabeira dos grandes movimentos literários do Brasil, de 22 ao Concretismo. Décio se orgulhava de tê-lo trazido para o seio da Poesia Concreta, e CR colaborou na página “Invenção” do CORREIO PAULISTANO e na revista INVENÇÃO, de onde seria expelido após a de nº 2. Cassiano Ricardo gozava de grande prestígio no meio literário e tinha um certo poder junto à cultura oficial do Estado de São Paulo. Pode ser considerado um conservador e até mesmo um reacionário, com vernizes vanguardistas), após ter dele ouvido que os concretistas eram muito radicais e precisavam ser mais maleáveis, flexíveis e que o arco tem de afrouxar um dia, não poderia permanecer tenso o tempo todo: “Vocês terão de afrouxar” (a ‘maldição de Cassiano’, no dizer de Augusto de Campos). A fala pignatariana ficou célebre entre os do grupo e foi publicada em definitivo no belo editorial-desabafo vanguardista de INVENÇÃO 5 (1966-67): “& certa vez um bi-acadêmico poeta de ‘vanguarda’ nos disse: o arco não pode permanecer tenso o tempo todo um dia tem de afrouxar & um dia vocês têm de afrouxar & nós: na geléia geral brasileira alguém tem de exercer as funções de medula e de osso &”. Antes, a expressão havia sido publicada, com alguma diferença, no editorial de INVENÇÃO 3, 1963: “… na geléia geral da arte brasileira, alguém ou algo tem de fazer a função de medula e osso” e, depois, o texto compareceu integralmente em Contracomunicação (1971), primoroso livro de crítica de Décio Pignatari. Em 1975, foi acrescentado aos textos na 2ª edição do Teoria da Poesia Concreta. Torquato Neto, que havia sido presenteado por Augusto de Campos com um exemplar do nº 5 da revista INVENÇÃO, a qual saiu em inícios de 1967, associado a Gilberto Gil (2ª metade dos ’60), fez um incrível uso da expressão cunhada por Décio que, interpretada a canção por Gilberto Gil, ficou uma maravilha – disco TROPICALIA OU PANIS ET CIRCENCIS (sic), 1968. Augusto de Campos, por ocasião dos 60 anos de Décio Pignatari (1987), elaborou um profilocaligrama dp que assim se inicia: “a geléia geral/que te deve até o nome/não engoliu o teu/décio pignatari/medula e osso”…! Entre outras tantas expressões/definições cunhadas por Décio Pignatari, não poderia me esquecer de O poeta é o designer da linguagem.

Omar Khouri São Paulo janeiro 2013 . 1ª publicação, na revista digital ZUNÁI

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