38. (De São Paulo de Piratininga) O Aster, um Centro de Estudos Teórico-Práticos das Artes

ASTER . ARTES O Aster não foi propriamente uma escola, como comumente a entendemos, nem quis assim se chamar, mas um centro de estudos práticos e teóricos das Artes, que contou com mestres de primeira categoria. Existiu na cidade de São Paulo, de meados de 1978 a meados de 1981 e teve como fundadores e instrutores permanentes artistas e críticos/professores de arte: Julio Plaza, Regina Silveira, Donato Ferrari e Walter Zanini, contando, ainda, com a colaboração de Nelson Leirner, Décio Pignatari, Vilém Flusser, entre outros tantos. Cabem-lhe as palavras-chave: Ensino das Artes, Artes Plásticas, Intersemioticidade (Interdisciplinaridade), Estudos Teóricos, Liberdade e Rigor.

Aster foi uma espécie de centro de estudos teóricos e práticos das artes, que funcionou durante um relativamente curto período (cerca de três anos) na cidade de São Paulo, à Rua Cardoso de Almeida 2289, nas Perdizes, em casa que antes havia sido habitada por Miriam Chiaverini, seu então marido Donato Ferrari e os filhos Lorenzo e os gêmeos Cristiano e Igor (que foram meus alunos na escola infantil e de primeiro grau Pequeno Príncipe, na segunda metade dos anos 1970). Miriam foi quem me encaminhou à FAAP para que aprendesse, como ouvinte, em seu curso de serigrafia – era assistida, na docência, por Paulo Guedes – técnica que me entusiasmou, dadas as possibilidades que oferecia para uma impressão de boa qualidade e a baixo custo, pb ou com uso de cores. Bem, mas voltemos ao Aster. Tal escola foi organizada com o propósito de ensinar técnicas, que iam da litografia à arte do vídeo (e lá esteve ensinando, independentemente, Roberto Sandoval, assistido pela sua então namorada Renata Padovan de Barros), passando por cursos teóricos de curta duração, envolvendo história e filosofia da Arte, Comunicação e Semiótica (ministraram cursos: Walter Zanini, Décio Pignatari, Paulo Leminski, Wilém Flusser, Nelson Leirner e outros tantos). “ASTER é um espaço para a produção artística: pensar/fazer arte. Seus objetivos dirigem-se a atividades docentes e a atividades de pesquisa no campo da arte. Enquanto centro de estudos para o ensino, ASTER tem por fim o conhecimento teórico e teórico-prático das artes visuais, através de cursos organizados e atividades – orientadas em atelier, de modo a possibilitar tanto a introdução como o desenvolvimento, em profundidade, do pensamento artístico e de projetos em linguagem visual. Como centro endereçado ao desempenho profissional, ASTER se propõe realizar trabalhos de assessoria artística, a nível teórico e prático, a exemplo de projetos e edições experimentais, bem como constituir-se num ambiente de eventos diversificados, para encontros e apresentações.” Assim é que tinha início o documento de fundação e lançamento do centro – uma escola muito especial – Aster (= estrela em latim, mas que em português anagramatiza-se em Artes, como, por meio de setas, já indiciava o seu logo) e apresentava os membros responsáveis: Donato Ferrari, Dolores Helou, Julio Plaza, Regina Silveira e Walter Zanini (que havia sido, além de insigne professor de História da Arte, o primeiro e mais importante diretor do MAC-USP. Sua gestão deixou marcas ainda perceptíveis na arte de São Paulo). Na época, o professor Walter Zanini desenvolvia pesquisa e organização dos dois volumes de sua História Geral da Arte no Brasil, que viriam a ser publicados pelo Instituto Moreira Salles. Do segundo semestre de 1978 ao primeiro de 1981, o Aster funcionou, mais bem que mal (sempre se recente da falta de um administrador honesto para gerir as finanças e organizar as coisas e penso que, em boa parte, foi este o caso) e foi pena que deixou de existir. Enquanto eu o frequentei para fazer um curso de litografia com Paulo Guedes, Paulo Miranda (estávamos envolvidos na feitura de uma nova publicação: Zero à Esquerda) foi aprender serigrafia, com Omar Guedes (falecido prematuramente em 1989. Talvez o maior serígrafo do Brasil à época. Fina sensibilidade artística. Pessoa como poucas.) e esta troca de nomes rendeu, na época, alguns lances bem-humorados. Paulo Miranda aprendeu tão bem, que chegou a ensinar os primeiros rudimentos da técnica a José Luiz Valero (na época, residindo em Presidente Alves) e até escreveu um brevíssimo e útil manual de serigrafia: um escrito belo e competente, e espirituoso. Zero à Esquerda, imprimimos no Aster, utilizando – mediante a devida remuneração – atelier livre, e foram muitas e muitas horas de trabalho duro, mas divertido. Cidinha, espécie de assistente de Julio Plaza e Regina Silveira, supervisionava as nossas sessões (lembro-me de que ela se entusiasmara com jogos verbais e até chegou a cunhar um “ela bela : belo elo”). Filmagens (em vídeo) da finalização da revista foram feitas lá, bem porque o empacotamento acabou sendo feito em casa do Paulo Miranda, à rua Doutor Villanova, naquela época. O Aster realizou muitos cursos e mini-cursos. Por lá passaram muitos artistas e alunos que se tornaram gente de prestígio. A divulgação das atividades da escola era precária – problemas com a veiculação de material impresso – porém, cartões, cartazes e cartazetes, criados, penso, que em sua maior parte, por Julio Plaza, eram um primor de arte gráfica e de inteligência artística (tive o privilégio de receber em casa todo aquele material e lembro, aqui, um cartão belíssimo de fim-começo-de-ano: HAJA LUZ EM 1980 – ideia de Paulo Leminski – que deixava transbordar a claridade sobre o destinatário). Estivemos – eu, Paulo Miranda e Sonia Fontanezi (ex-aluna da FAAP, curso de Artes Plásticas, e que ali reencontrava os antigos mestres) – no Aster, mais do que quaisquer outros alunos. A nós, juntava-se todo um pessoal envolvido na feitura de Zero à Esquerda, revista-álbum feita quase toda em serigrafia: Walter Silveira, Zéluiz e Carlos Valero (raramente), Tadeu Jungle. Fizemos uma tiragem de 500 exemplares da revista, sendo que cada trabalho chegava à tiragem de 550 ou 600 exemplares (e isto ia mais pelo perfeccionismo de Paulo Miranda). Essa época marca uma das melhores de nossas vidas, tenho a certeza. A casa onde funcionou o Aster ainda está lá, com pequenas modificações, no limite de Perdizes com Pacaembu. O Aster sempre me lembrará as grandes pessoas que por lá passaram e que, em sua maioria, eram meus amigos. De lá ficaram alguns dos trabalhos mais importantes de poesia intersemiótica e que fizeram parte da revista Zero à Esquerda ou funcionaram como edições autônomas, como foi o caso do Hitchcock, de Walter Silveira. Esse pequeno e importante capítulo das artes em São Paulo, que foi o Aster em funcionamento, merecerá um bom estudo avaliativo. Que venha e aconteça!

Publicado n’O Alfinete, Pirajuí, de 05 de junho de 2004.

Mário no ASTER. Quando fiz o registro escrito sobre o Aster (o centro de estudos teóricos e práticos das artes) nesta coluna – e a casa que leva o número 2289 da Cardoso de Almeida, nas Perdizes ainda lá está – esqueci-me de uma figura proeminente, espécie de zelador-auxiliar-de-ensino-técnico, que veio do Nordeste (Pernambuco), trazido pelo irmão Antônio, que era ajudante-técnico de Julio Pacello (o famoso gráfico, que executou edições de gente como Julio Plaza, Regina Silveira, entre outros). Pois é, Mário Albuquerque (irmão, também, de Severina, que trabalhou até bem pouco tempo em casa de Regina Silveira, tendo-se aposentado) era muito inteligente e interessado e passou a ser assistente-técnico de gravura, muito competente, por sinal. Quando o Aster fechou (existiu de meados de 1978 a meados de 1981), Regina Silveira o encaminhou para a Universidade de Caxias do Sul, através da artista Diana Domingues, onde está até hoje. Mário era a gentileza em pessoa, de uma educação rara e esteve sempre presente no tempo em que a equipe da Nomuque Edições, ocupada principalmente com a feitura de Zero à Esquerda, lá trabalhava. Lendo meu artigo n’O Alfinete, Regina Silveira logo me falou: “Você se esqueceu do Mário!” De fato: ele deveria ter sido citado e aqui e agora eu o faço. Mário, inteligente como era, estudou e adquiriu um repertório apreciável no que respeita a gravura. No tempo de Aster: uma conduta irrepreensível, um diplomata: sabia o comportamento exato, assim como a palavra, para as diferentes situações. Mário: parte importante da história do Aster. [Mário Albuquerque: espécie de factótum no Aster.]

Publicado n’O Alfinete, Pirajuí, em 25 de setembro de 2004.

 

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