42. (De São Paulo de Piratininga) 5 Resumos Expandidos de Trabalhos Apresentados e Publicados em Lisboa

As Facturas Intersemióticas De Paulo Miranda, Um Poeta Da Era Pós-Verso

Nascido em 1950, Paulo Miranda desde cedo dedicou-se aos estudos e às práticas poéticas, chegando, ainda adolescente, a um grande domínio da tecnologia do verso, daí resultando algumas poucas peças, as quais poderiam ser consideradas modelos de incursão fanopaica em poesia, como colocou Ezra Pound para os poemas em que as palavras remetem a imagens. Porém, a partir de meados dos anos 1970, de par com a revivescência da experimentação das Artes no Brasil, sua poesia se encaminhou para um tipo de procedimento que, à época, costumava-se chamar Poesia Intersemiótica, ou seja, aquele tipo de poesia em que seus resultados configuram-se como um encontro de códigos/linguagens, quase sempre com predomínio dos códigos da visualidade, sem deixar de lado o verbal, mesmo quando se resumia a resíduos de um discurso poético, ou ao título da peça. Sendo uma poesia que possui como precedente, no Brasil, a Poesia Concreta, foi proposta a denominação Poesia da Era Pós-Verso, muito embora a poesia versificada se mantivesse – com importância reduzida – como prática no Brasil e no Mundo. A poesia praticada por Paulo Miranda possui como uma das principais características o seu trânsito nos vários media, sem perda de informação estética e é o que se tem verificado e, sob esse aspecto, chega a ser um trabalho paradigmal. O poeta, em cerca de 40 anos, não chegou a produzir vinte peças, menos por falta de ideias que por apego ao rigor e o temor à redundância. Cinco de seus trabalhos serão apresentados, seguidos de breves abordagens formais/críticas. CSO’2014

E Pluribus Unum: As Poéticas Viso-Conceituais De Peter De Brito, Um Artista Da Contemporaneidade

 No panorama das Artes Visuais da contemporaneidade brasileira, Peter de Brito (nascido em 1967) é um valor artístico que, mesmo tendo alcançado, enquanto produtor de linguagem, o patamar do notável, não chegou à notoriedade propiciada pela veiculação de seu trabalho nos vários media, principalmente os impressos, o que significa que ainda não adentrou o difícil e inevitável universo do mercado de arte. Admirável em seu trabalho, que se desenvolve de 20 anos para cá, é o metamorfosear do qual resultam fases bem distintas, mas que mantêm uma unidade temática e qualidade formal, envolvendo propósito, competência artesanal e forte conceptualismo, o que o coloca de par com o que se pode chamar Contemporaneidade. São apresentados, aqui, três momentos de seu percurso artístico, quais sejam: 1. As experiências fotográficas em que dialoga com a tradição artística, a partir da Renascença, elegendo fazedores, como Michelangelo Buonarroti, entre outros, e justapondo e superpondo imagens – criando o inusitado ou, mesmo, dispondo-as sequencialmente; 2. a auto-abordagem, multiplicando-se em personae muitas, onde entra toda uma crítica (via moda e grifes) ao consumismo desenfreado de nossa época; 3. o momento em que, apropriando-se de imagens de auto-representação de outrem, via Internet, constrói todo um universo em que reina Eros, o Amor carnal, abarcando a mais tradicional técnica de pintura, a modelagem/escultura e o vídeo. Num tempo em que não mais se visa à excelência do desempenho artesanal, porém não se o exclui, em que o conceito ocupa o centro das cogitações, de par com a utilização das novas tecnologias/linguagens, Peter de Brito abraça o momento e produz algo digno de nota, como que adotando o que, nos anos 1980, escreveu Haroldo de Campos sobre o poema pós-utópico: como algo aberto à pluralidade das possibilidades do hoje. Múltiplo e uno – assim é, em sua obra, Peter de Brito. CSO’2015

 

As Incursões Gráficas E Pictóricas De Tadeu Jungle (Ou, O Elogio Do Ruído)

Mesmo considerando-se, antes de tudo, um poeta, Tadeu Jungle (São Paulo 1956-) transita por várias artes e afazeres, destacando-se como vídeo-artista, performer, cineasta, apresentador e, certamente, poeta. Tendo começado a atuar, como produtor de linguagem, a partir de fins dos anos 1970, o que o tem marcado é um desempenho interdisciplinar, em que o exercício multimedia e a intersemioticidade se acoplam, donde saem produções admiráveis. Mesmo sendo um digno representante dos poetas que receberam forte herança do Concretismo paulista, sua cabeça anárquica, mais ao modo de Oswald de Andrade, fá-lo produzir peças que logo se tornam antológicas na panorâmica brasileira da experimentação. Para Tadeu Jungle viver a vida é viver a aventura da linguagem e, quando esta se refere à poesia, produz peças que chegam a criar uma certa instabilidade emocional em quem as aprecia, identificando-se, nisto, com outros poetas da mesma estirpe, experimentadores que atuam na Era Pós-Verso. Sabe o que é caligrafia, e produz cacografia, conhece eufonia, mas desdobra-se em cacofonia, é exímio em se tratando de eurritmia, no entanto, opta pelas quebras de ritmo. Foi dos primeiros poetas grafitadores de São Paulo sendo que, trabalhar sobre papel, placas de aglomerado ou muros/paredes, para ele era apenas uma questão de oportunidade. Algo notório em seus trabalhos é a presença de ruídos (perturbações no processo), que ele persegue e, dando chance ao acaso, permite que aqueles ocorram em profusão – o ruído a entrar como elemento constitutivo estrutural da obra de arte, como na música de John Cage. Rigor e desmazelo, acaso e controle, ruído e informação – Tadeu Jungle opera nesse território. Em seus poemas, tanto se vislumbra a herança dos concretos, como a do ready-made duchampiano, da arte pop, mormente a estadunidense, destacando-se, ainda, a cali- ou a cacografia gestual, como no poema O lance do gago, em que parodia-homenageia-faz-referência ao Lance de dados malarméano. Da geração surgida no Brasil nos anos 1970, Tadeu Jungle é um desses valores maiores. É menos conhecido como poeta que como vídeo-artista, e sua contribuição tem sido grande em todos os campos em que vem atuando. Porém, sua contribuição maior é no campo da poesia, em que o verbal e os códigos da visualidade se encontram e fazem configurar poemas que se distinguem pela qualidade. Rev. :ESTUDIO ‘2015-16

 

Non Multa Sed Multum: Parcimônia E Prodigalidade Na Obra De Villari Herrmann

A Poesia Concreta se constituiu no primeiro movimento de criação artística internacional que deve sua origem, inclusive, aos brasileiros do Grupo Noigandres. Estes perceberam que o Brasil, folclore à parte, era um país que comportava precisão e rigor, como se observava na arte europeia de linha construtiva, ligada às chamadas vanguardas históricas. Configurou-se, a partir das produções artísticas e críticas dos referidos poetas, uma tradição de parcimônia e rigor, que se radicalizou principalmente na obra de poetas que começaram a publicar seus trabalhos a partir dos anos 1970. Villari Herrmann (São Carlos, SP, Brasil: 1943-) destaca-se dentre os poetas do referido momento – e dali em diante – como um valor exponencial, devido à excelência de suas facturas e à quase-total ausência de redundâncias numa obra pouca, que já nasce antológica, dada a seleção feita pelo próprio artista antes de enviá-la ao público, considerando os fatores que dela fazem uma obra mais notável que notória: a perfeita fusão de elementos do código verbal com os da visualidade (aspectos gráficos e cromáticos), enfim, a intersemioticidade, a vocação do trânsito entre os vários media sem perda de informação estética, uma aparente dificuldade de leitura, em princípio, compensada pela alegria da descoberta. Villari Herrmann opera no limite entre a Poesia, propriamente, e as Artes Visuais, sendo um grande conhecedor destes dois universos, e os obriga a um diálogo que resulta em trabalhos surpreendentes. O poeta entra, para outros poetas brasileiros da mesma estirpe, como uma espécie de paradigma – citem-se poemas de Júlio Mendonça (1958-) e Gastão Debreix (1960-), assim como do também paradigmal poeta-construtivista: Erthos Albino de Souza (1932-2000). Villari Herrmann, sem a síndrome de liderança e sem proselitismo de qualquer espécie, acaba por encabeçar toda uma plêiade de fazedores, que tem produzido a Poesia mais instigadora de que se tem notícia no Brasil nos últimos quarenta e cinco anos. Sua poesia traz à luz um Brasil diferente do Brasil-para-turistas, provando que (como sabiam Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos – três grandes nomes do universo lusófono) o poema, como as obras de arte em geral, é, de facto, resultante de um processo em que racionalidade e sensibilidade interagem para que a obra aconteça. CSO’2016

Lenora De Barros: Uma Produtora De Linguagem Transpondo Fronteiras

A partir de meados dos anos 1970, no Brasil, observou-se, não apenas a retomada do experimentalismo em poesia, com incursões intersemióticas, mas também, o surgimento de revistas experimentais, que foram o principal veículo da referida poesia, nos anos ‘70, ‘80 e ‘90, revelando valores notáveis, muito embora sem um trânsito (na maior parte dos casos) nos grandes media. Poetas como Villari Herrmann, Paulo Miranda, Lenora de Barros, Júlio Mendonça, Walter Silveira, Tadeu Jungle, Aldo Fortes, Arnaldo Antunes, Gil Jorge, Gastão Debreix, João Bandeira, entre outros. As revistas: Navilouca, Polem, Código, Artéria, Qorpo Estranho, Zero à Esquerda, Atlas etc. Estas, geralmente de vida breve, com poucas chegando ao terceiro número ou ultrapassando-o. Dentre os então novos valores, destaca-se Lenora de Barros (São Paulo, 1953-), fazedora que, desde a sua primeira publicação, transita num universo sem fronteiras entre as linguagens, trazendo lastro do repertório concretista – com o seu construtivismo e o exercício experimental da fotografia – e da Pop Art, juntando-se, ainda, a herança duchampiana (alicerçando a Arte Conceitual), mais uma competência rara na lida com o código verbal. Difícil classificar Lenora de Barros, depois de décadas de atuação como produtora de linguagem: poeta, artista plástica, videoartista, performer? O mais correto seria chamá-la simplesmente de ‘artista interdisciplinar’, com um trabalho que se distribui por muitas linguagens e meios, mas que mantém uma coerência temática e de arrojo formal, como poucos. Lenora de Barros possui poemas dignos de serem veiculados em quaisquer antologias planetárias, o que, de facto, tem ocorrido. Sua produção, no Brasil, deve figurar entre as das grandes mulheres, que elevaram a Arte brasileira a um patamar notável, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mira Schendel, Regina Silveira e algumas outras. Some-se a isto a sua postura dentro de um neo-feminismo brasílico, forte mas sem estardalhaço. De comportamento paradigmal, Lenora de Barros adentrou, com vigor poético/artístico, o século XXI. CSO’2017

 

 

 

 

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