30. Arremates à Beira-Tejo.

Alguns assuntos laterais (porém, não menos importantes) relativos à pesquisa que vimos desenvolvendo em Lisboa ficaram, até aqui, sem registro em forma de uma escrituração publicável, e outros tantos ficarão, dada a riqueza do assunto e por ser um trabalho que ainda deverá se desenvolver por algum tempo (pois ultrapassa, e de muito, os limites estabelecidos de nossa proposta de pesquisa), com o surgimento de mais fontes e, portanto, de outros dados importantes. Veiculo, por ora, esses arremates à Beira-Tejo (que necessitarão de alguns poucos ajustes), esperando que venham a ser úteis a outros pesquisadores e aficionados do assunto – Poesia de Invenção/Poesia Experimental, Portugal e Brasil.

Antologias de Poesia Concreta no Brasil houve, mas nada que se comparasse aos portentosos volumes que ora se encontram com a Ateliê Editorial: o Viva Vaia, de Augusto de Campos e o Poesia Pois É Poesia, de Décio Pignatari que, como outros, tiveram de esperar os meados dos anos 1970 (Editoras: Duas Cidades, Brasiliense – e lá se vão 40 anos!) para terem obra poética editada comercialmente (depois, vários outros títulos aconteceram, muito bem produzidos graficamente, sem economia de meios). Haroldo de Campos e José Lino Grünewald, Edgard Braga e Pedro Xisto de Carvalho (este com edição autofinanciada) também tiveram voz e vez – Ronaldo Azeredo ficou na espera (até o presente momento). Em 1962 saiu a Noigandres 5 (antologia) do verso à poesia concreta, com Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Ronaldo Azeredo, em verdade, edição financiada pelos poetas (José Lino Grünewald…), muito embora levasse o nome de editor. Nos anos 70 as editoras Vozes e Abril chegaram a editar antologias de Poesia Concreta sem, porém, os cuidados gráficos que os poemas exigiam e mereciam. Mas já foi alguma coisa. Na Bahia, nos anos 80, Erthos Albino de Souza editou um número especial de Código (nº 11, 1986) abordando a Poesia Concreta, e a Nomuque Edições (1986 – 30 anos da Poesia Concreta) fez uma pequena edição, toda impressa em serigrafia: Poesia Planetária: a Revolução Concreta – Amostragem. Durante muito tempo, revistas cumpriram esse papel de veiculação e até de memória viva da poesia brasileira de caráter experimental (o que foi comum, também, em Portugal e outros países) e dessas, apenas restou Artéria que, em 40 anos, teve somente 10 números, mas que insiste em continuar. Na Rede: Errática, editada pelo poeta André Vallias. No Brasil, há as Poesias Visuais, de diferentes vertentes, sendo raros os contactos entre poetas das diferentes águas e raras também foram as antologias publicadas – ocorrem-me, agora: Saciedade dos poetas vivos, organizada por Urhacy Faustino e Leila Miccolis (1993) e Bacana 1: coletânea de poesia visual em postal, organizada por Philadelpho Menezes (1994) – cheguei a ver, cá em Lisboa, num sebo (alfarrabista), uma Antologia da poesia visual mineira, edição mais ou menos precária dos anos 90, mas não pude adquirir o pequeno volume. Porém, do pessoal que se identifica com a herança concretista, nada. A não ser belas exposições que têm acontecido no Brasil e fora, quase sempre sem catálogo, propriamente ou com catálogo que não cumpre o papel de uma antologia, como a bela mostra organizada nos EUA (Austin, Texas) por Regina Vater, reunindo poetas de várias das vertentes experimentais do Brasil e que teve, além de reportagem com grande destaque na revista Art in America, um catálogo simples, mas se encontra na Rede até hoje: www.imediata.com/BVP/. A recente exposição ARTÉRIA 40 ANOS, organizada pelo Espaço Líquido, Caixa Cultural-Rio de Janeiro, com curadoria de Omar Khouri e Paulo Miranda, além de uma bela mostra, teve um catálogo que vale por uma antologia. Outras mostras: Poesia Evidência (1984 – organização de Gil Jorge, PUC-SP, sem catálogo), Palavra Imágica (1987 – org. Betty Leirner e Walter Silveira, MAC-USP, com catálogo básico), I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo (1988 – org. Philadelpho Menezes, com muitas exclusões e auto-exclusões e que contou com 2 pequenos catálogos, sendo um [Arte Pau-Brasil] constituído de 26 poemas em formato de catões-postais, de poetas do Mundo todo – CCSP), Paraver (1993 – org. Omar Khouri e Inês Raphaelian, Faculdade Santa Marcelina, sem catálogo), Poesia Brasileira da Era Pós-Verso (2011 – org. Omar Khouri, IA-UNESP, um simples cartaz-folheto, com texto de apresentação), Poesia (2012 – org. Omar Khouri e Paulo Miranda, Galeria Virgílio-SP, folheto com apresentação), além de muitas outras menores, mas também, importantes. Em 1990 e 1992, André Vallias organizou a parte brasileira da Transfutur, que teve lugar em Kassel e Berlin, Alemanha, mostra que também reuniu poetas visuais da área de língua alemã e da Rússia, e que teve catálogo. Houve catálogos-registros, também, em exposições realizadas em instituições, como a Poéticas Visuais, 1977, no MAC-USP, por Walter Zanini e Júlio Plaza; este também organizou mostra que, de São Paulo chegou à cidade do Porto, em Portugal (Transcriar – 1985) e que contou com catálogos. A Multimedia Internacional, idealizada por Walter Silveira e Tadeu Jungle, com o apoio de Walter Zanini, que teve lugar na ECA-USP, em 1979, contou com catálogo de grande valor documental. Ou seja: falta uma boa amostragem impressa, e em volume, da poesia experimental brasileira que se desenvolveu a partir da Poesia Concreta. Mencionem-se, ainda, os catálogos: O Grupo Noigandres (2002 – organização João Bandeira e Lenora de Barros), Poesia Concreta: O Projeto Verbivocovisual (2008 – org. João Bandeira e Lenora de Barros) + o site www.poesiaconcreta.com, e Concreta 56: a Raiz da Forma (2006 – MAM-SP). A recente mostra que organizei em Lisboa, na FBAUL, em fins de 2015, pequena mostra, mereceu um catálogo simples, que vale como registro e esteve vinculada ao meu projeto de Pós-Doutorado: Amostragem da poesia brasileira da era pós-verso (ver ouvir pensar).

Em alguns dos textos/depoimentos ou em textos em que historia a Poesia Experimental portuguesa, o pioneiro Melo e Castro diz que, em Portugal, não houve de facto a constituição de um grupo de vanguarda coeso, como aconteceu no Brasil – tanto no que diz respeito à Poesia, como às Artes Plásticas: Grupo Noigandres e Grupo Ruptura, formados em 1952, em São Paulo e Grupo Frente, menos coeso, em 1954, no Rio de Janeiro. O que houve em Portugal foi um conjunto de poetas ligados por afinidades de propósitos e laços de amizade, sendo algumas duradouras e, ao longo de um percurso que durou décadas, a aquisição de outros elementos humanos, de outras gerações, mais novas. Melo e Castro deixa clara a importância e a influência dos brasileiros do Grupo Noigandres para o despertar da experimentação na poesia portuguesa, assinalando até a passagem de Décio Pignatari por Lisboa, em meados de 1956, embora sem repercussões. Depois, destaca como fundamental a antologia Poesia Concreta, editada em 1962, organizada pelo poeta e escritor, diplomata de carreira Alberto da Costa e Silva, secretário da Embaixada do Brasil em Lisboa, à época. Isto teria, realmente, despertado o interesse de poetas jovens para a experimentação, muito embora ele, Melo e Castro, já viesse com as suas inquietações e havia precedentes, em Portugal, de valorização de aspectos visuais em poesia, desde o 1º Modernismo, chegando até a poetas de linhagem surrealista (isto sem falar no posterior conhecimento das peripécias visuais dos barrocos portugueses dos séculos XVII e XVIII, matéria que foi pesquisada estudada e divulgada por Ana Hatherly, nos anos 1970, com publicação de resultados a partir de fins da década e o mais importante livro, em 1983: A experiência do prodígio…). No mesmo ano de 1962, saiu o livro de poemas concretos de Melo e Castro: Ideogramas, que veio a ter fundamental importância para o desenvolvimento subsequente da experimentação na poesia, em Portugal. O artigo de Ana Hatherly, no Diário de Notícias, de 1959, não chegou a ter repercussão à época e o poema apontado como “o 1º poema concreto português” saiu, na referida edição, desformatado, sendo que, somente em edição posterior, foi rearrumado. Ana Hatherly, poeta experimental do 1º momento (muito embora não compareça – 1964-65 – na revista Poesia Experimental 1, Suplemento Especial “Poesia Experimental”, do Jornal do Fundão, tampouco na antologia que Melo e Castro traz ao final do seu A Proposição 2.01: Poesia Experimental) prefere apontar como as influências principais da experimentação poética em Portugal aquelas hauridas na própria Europa, desde os exemplos que podem ser colhidos no 1º Modernismo, até experiências dos anos 1950, de Gomringer e outros – sem se esquecer de toda a tradição de visualidade na poesia europeia, desde os gregos aos barrocos portugueses – apontando Melo e Castro como sendo uma espécie de seguidor dos concretos do Grupo Noigandres. Fica difícil analisar as coisas, se se toma uma espécie de partido nessa questão, porém, a presença dos brasileiros nas origens da Poesia Experimental portuguesa é óbvia – e que mal haveria nisto? Pensamos que a notória aproximação de Melo e Castro dos componentes do Grupo Noigandres, especialmente Haroldo de Campos, deve-se à extrema racionalidade ou cerebralismo, o que estava acorde à formação em Ciências Exatas de Melo e Castro, um engenheiro têxtil. Não à toa, à maneira dos brasileiros e de tantos outros poetas do século XX, Melo e Castro desenvolveu, concomitantemente à sua atividade poética, uma extensa obra metalinguística, obra de reflexão sobre poesia e criação artística em geral o que fez, também, Ana Hatherly. A essa influência inicial sofrida por Melo e Castro, segue-se uma obra que dá vazão ao seu cosmopolitismo e à curiosidade com relação a novas tecnologias, características marcantes em toda a Poesia Experimental portuguesa. Do Mundo para Lisboa, de Lisboa para o Mundo. Portugal acabou por produzir, do Planeta, uma das poesias mais instigadoras e os chamados experimentais históricos têm aí um papel fundamental. Pensamos que a onipresença de Melo e Castro cria uma certa indisposição (para alguns). Interessante que, quando em 1973 é editada uma importante antologia, organizada por José-Alberto Marques e Melo e Castro, sai com o título Antologia da Poesia Concreta em Portugal (Lisboa: Assírio & Alvim) e traz, do ano anterior, uma entrevista com Haroldo de Campos de passagem por Lisboa, em que os assuntos tratados são mais gerais do que especificamente de uma ou outra poesia experimental. Em época mais recente, em que tem sido muito requisitado para entrevistas, criador importante que é, Melo e Castro tem dado muita ênfase à herança mediterrânica longínqua, quando toca na questão da visualidade na Poesia Lusa.

Com relação à opção pelo político (os temas políticos), o pró é mais grave (pernicioso) que o contra. Uma opção pelo social-explícito (o abraçar uma causa), em certas conjunturas, é preferível à opção por um partido-político em particular porque, invariavelmente o poeta quebrará a cara – é somente uma questão de tempo. Quanto ao pró, um publicitário faria melhor, pois que a publicidade somente diz sim. Isto não desmerece grandes poetas, que chegaram a ser publicitários profissionais por pouco ou muito tempo, como por exemplo Décio Pignatari, Alexandre O’Neill, Paulo Leminski. Até Pessoa foi cogitado para a confecção de um slogan para a coca-cola: esta, não era a praia de Pessoa, que fez um slogan trocadilhesco difícil e com – é claro – qualidade poética, mas, coisa de alguém que não era do ramo: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”! O slogan não foi veiculado. Mas, artistas e poetas têm feito trabalho engajado e de altíssimo nível: de Goya e Picasso aos Antónios: Aragão, Nelos, Dantas, Décio Pignatari, Carlos Valero, Villari Herrmann, Júlio Mendonça, André Vallias. Fora de partidos, tudo bem, pois as coisas transcorrem tendo o poeta/artista liberdade de ação poética/artística. Com ligações partidárias, o caldo entorna quando pessoas ignorantes em matéria de Arte, começam a sugerir, a querer direcionar o trabalho artístico e, mesmo, a impor-lhe normas de procedimento, temas etc. Político, de um modo ou de outro, todo trabalho é, ou mais ou menos. Não à toa os abomináveis regimes totalitários e autoritários perseguiram as artes (revolucionárias enquanto linguagem) – será que compreendiam o perigo de um trabalho de desmantelamento dos discursos repetitivos políticos kitsch? e. e. cummings: A politician is an arse upon which everyone has sat except a man (e, em tradução-recriação de Augusto de Campos: Um político é um ânus no qual tudo se sentou exceto o humano). Se se referir à conjuntura por uma necessidade de expressar-se, seja sempre contra e, se for a favor, reprima-se e não se expresse, pois você não conseguirá ultrapassar os limites do kitsch, que é onde desemboca tudo o que é laudatório.

Omar Khouri . Lisboa . 2016 . Bolsista PDE pelo CNPq junto à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa . Supervisor: Prof. Dr. João Paulo Queiroz

Um comentário sobre “30. Arremates à Beira-Tejo.

  1. Riquíssimo como suas aulas e, como diz, será extremamente útil para os pesquisadores futuros. Obrigado por partilhar generosamente todo o material de seus textos. Parabéns.

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