41. (De São Paulo De Piratininga) Revista Código 1 – Bahia

            Revistas sempre me fascinaram: dos gibis, na infância (cheguei a formar uma pequena coleção, desfeita pelos empréstimos sem devolução), às revistas literárias, na adolescência, e daí em diante. As experimentais, desde que tomei conhecimento de Klaxon, fins dos anos 1960 e, nos inícios dos anos 1970, em que pude consultar os números da edição original no IEB-USP e o fac-símile 1972 o qual foi-me oferecido, em meu aniversário daquele ano, por Paulo Miranda. Possuía conhecimento bem anterior da experimental-concretista Invenção, a de nº 5, numa aula em que palestrante a mostrou para alunos do então Colegial – seus cinco números, vim a conhecer depois, e bem, assim como os também cinco números de Noigandres.

            Tomei conhecimento da Código, revista editada por Erthos Albino de Souza (1932-2000), com fundamental colaboração de Antonio Risério Filho, em fins de 1974, graças ao Poeta Augusto de Campos, com quem havia entrado em contacto, a propósito de meu primeiro livro: Jogos e fazimentos, que havia saído pela Nomuque Edições, naquele mesmo ano. O autor do Poetamenos é que me ofereceu um exemplar, o qual eu não havia encontrado – seguindo indicação do Poeta – na Feira da Bahia, que se realizava no Anhembi, São Paulo.

            Ao que me lembro (porém, devem existir muitos mais), há dois trabalhos importantes que tratam da Código: um, de autoria de Felipe Paros, que se constituiu em sua Dissertação de Mestrado, que contou com minha orientação, no IA-Unesp: Decifrando Códigos…, de 2005 e que continua inédito, à exceção de artigos sobre o tema publicados pelo autor. O outro, trabalho de equipe – Ariane Stolfi, Bruno Schiavo, Daniel Scandurra, Gabriel Kerhart e João Reynaldo – que foi concluído em 2016 e que se encontra na Rede: Código Revista (digitalização da revista Código). Esses trabalhos, mais o que foi feito em época recente tendo como objeto a revista Artéria, são importantes para a recuperação de uma história já feita e por fazer, que trata das revistas experimentais do Brasil, a partir dos anos 1970.

            Mas o que me deixou preocupado, há pouco tempo, é se haveria erro de minha parte na datação do nº 1 de Código, em que consta o ano de 1974 – a revista, propriamente, não traz a data de sua publicação e o que se sabe, com certeza, é sobre a sua distribuição a partir de inícios daquele ano, ano em que passam a circular, também, Polem e Navilouca. Navilouca teve inúmeros problemas, a começar pela morte prematura de Torquato Neto, em 1972, sendo ele, com Waly Salomão (Sailormoon, como assinava seus trabalhos) co-organizador da revista, a qual enfrentou problemas financeiros, somente saindo graças à interferência de Caetano Veloso, que intercedeu junto a André Midani, da Polygram, que acabou por financiar a sua liberação da gráfica, sendo distribuída em fins de 1974 como “brinde de fim de ano”, sendo melhor distribuída no ano seguinte, como me informou por telefone e chegou a escrever e publicar Waly. Polem, como me falou Duda Machado, foi pensada em função da não-saída de Navilouca e até manteve bastantes afinidades formais com ela, assim como manteve parte substancial de colaboradores.

            Afinal, um ano possui 365 dias e importa, sim, saber como foi a ordem de entrada em cena dessas importantíssimas revistas, verdadeiras lendas na história de publicações coletivas de ponta no Brasil. Das 3 revistas, a que maiores afinidades possuía com o espírito gráfico dos concretistas foi Código, muito embora Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari colaborassem em todas elas.

Documentos:

  1. Datada do último dia do ano de 1974, recebi, de Erthos Albino de Souza, uma carta-bilhete, acusando o recebimento de meu 1º livro: Jogos e fazimentos, que a ele e ao Risério eu havia enviado, por sugestão de Augusto de Campos:

Bahia, 31/12/74

 Caro Omar Khouri

 Recebemos, eu e Antonio Risério, o livro jogos e fazimentos

Que muito nos agradou e agradecemos.

Estamos com seu endereço para envio do próximo número da revista

CÓDIGO que em breve sairá pela segunda vez.

Receba abraços do

 Erthos

            Código 2 saiu no 1º semestre de 1975 e Erthos enviou-me prontamente 1 exemplar – saiu antes de Artéria 1, revista editada por mim e por Paulo Miranda, motivada, em grande parte por Código 1 e que trazia a chancela da Nomuque Edições – editora criada por nós, em Pirajuí, no ano de 1974.

  1. Troca de e-mails entre mim e Risério, em 16 de fevereiro de 2017:

Risério, meu caro

Tanta água já rolou, porém, ainda tenho uma dúvida que, em verdade, não altera o curso da História. A Código 1 (que inspirou Artéria 1): consta, para mim, que saiu (ficou pronta, impressa) em inícios de 1974 (a revista não traz a data). Acontece que já encontrei a data de 1973. Sei que o trabalho de vocês se desenrolou, mesmo, em ’73. Por favor: esclareça-me. Grato.

Abraços

Omar

           A resposta de Risério:

Omar, amigo… infelizmente, Erthos já se foi: ele responderia de forma definitiva.

Minha memória falha, principalmente depois do AVC.

Mas tenho para mim que ficou impressa em 1974.

Erthos carimbou alguns exemplares, mas não tenho nenhum deles.

Vc viu que compartilhei no fb seu texto sobre meu romance?

Grande abraço,

AR.

           Eu, esclarecendo detalhes:

Risério, caríssimo

Obrigado pelo retorno. Você esteve na Feira da Bahia (Anhembi) em fins de 1974? Lá adquiri Polem e Bahia Invenção (por si organizada), mas não a Código 1, que me foi oferecida, em fins de novembro, na 1ª visita que fiz à casa de Augusto de Campos.

Abração

Omar

           Risério:

Sim, estive na Feira. “Bahia Invenção” foi produzida especialmente para a feira. Passei quase um mês em São Paulo. Augusto ia lá quase todo dia – comer comida baiana. Organizei o stand de poesia. Tinha uma placa enorme com o poema de Augusto – e uma fita girando com Caetano dizendo “Dias Dias Dias”. Smetak, Augusto e Haroldo conversando (coloquei esta cena no meu romance). E um músico argentino de vanguarda, Rufo Herrera, e um grupo chamado Octeto, com a “ópera” Onirak, onde os cantores recitavam cidade/city/cité… Foi uma festa essa feira.

Grande abraço,

R.

          Respondi a Risério:

Risério: e você com 21 anos!

Augusto, por telefone, antes que eu fosse à sua casa, havia dito a mim que aconteceria a Feira. Não desfrutei de todo o complexo de eventos, mas lá estive. Seguia os Bahianos (Baianos?) desde meados dos ’60, lá de Pirajuí. Vamos nos falando. Abracíssimo

 Omar

  1. Em carta de Antonio Risério para Augusto de Campos (cedida a mim por este), datada de fevereiro de 1974:

fev. 74

augusto:

você já deve ter recebido a revista. acho que ela ficou bonita e espero que você tenha gostado. foi a primeira vez q fiz tal tipo de trabalho. gostei. há, é claro, muitas coisas a corrigir.

[…]

estamos planejando um segundo número (cor e formato diferentes) para maio ou junho. […]

           Augusto:

17-2-74

caro risério

este pequeno bilhete out of board com pés em terra aqui em spaulo SÓ PARA CUMPRIMENTÁ-LO (já falei com o Erthos por telefone) pela revista!!! gostei demais, embora eu seja o menos indicado para tanto já que fui o mais premiado em espaço e matéria, mas está mesmo legal, bem impressa, ágil, viva. estou entusiasmado, esperando q a coisa continue e haja novos números. conte comigo.

 uma só observação. acho q devia haver uma referência qualquer: título e mais local e data. agora q vejo a revista e o título me vem naturalmente: CÓDIGO. CÓDIGO 1, CÓDIGO 2, CÓDIGO 3, etc. acho legal. […]

[Rubrica de Augusto de Campos]

            Em entrevista concedida a Bruna Callegari, do ‘Espaço Líquido’, um 24 de julho de 2015, com vistas ao documentário “Artéria 40 anos”, e publicada no catálogo da mostra de São Paulo (2ª ed. junho de 2016, p. 45) disse Augusto de Campos: “A primeira que surgiu nessa fase dos anos 1970 foi a revista Código, na Bahia, em fevereiro de 1974, dirigida pelo Erthos Albino de Souza, precursor da poesia digital no Brasil, e pelo Antonio Risério, jovem poeta que tinha 20 anos naquela época. Em seguida saíram as revistas Polem, do Rio de Janeiro, dirigida pelo Duda Machado, que também era ligado, de alguma forma, ao grupo da Bahia, e finalmente a Navilouca, que teve um único número e que foi lançada em dezembro de 1974, criada pelo Torquato Neto e Waly Salomão. Então, houve aí uma confluência de poetas que provinham também do contato com o grupo poético da Tropicália.”

            Interessante que revistas experimentais, em Portugal, são marcadas pelo 2, dois números, a começar pela célebre Orpheu (a de nº 3 ficou na provas tipográficas). Nos anos 1960 – Poesia Concreta e experimental, idem: Poesia Experimental, Operação e Hidra. No Brasil, Klaxon, com seus 9 números em 8 volumes (1922-23), acabou e recebeu, em 1924 comentário raivoso de Manuel Bandeira: “Paulo Prado faz a semana de arte moderna, aceita almoço dos klaxistas e, rico, deixa morrer a klaxon…” (Andorinha, andorinha, p. 248). Parece que não foi por falta de dinheiro que Klaxon acabou, mas mais por falta de disposição em continuar, falta de entusiasmo, a partir de um certo momento, daqueles que se envolveram diretamente com sua elaboração, como colocou Mário da Silva Brito (O alegre combate de Klaxon).

            Código, prodigiosamente, chegou ao número 12 (1989-90) e deixou de ser editada, mais por dificuldades de conseguir um designer gráfico, que cuidasse do projeto, do que por qualquer outra coisa. Também, um certo cansaço de Erthos Albino de Souza, que bancava (porque possuía os recursos financeiros necessários) totalmente a Revista e que, aposentando-se da Petrobrás, passou a ter muito mais tempo (desnecessário, diga-se) para cuidar de outras edições de Código, que não vieram. Em 1991, por ocasião do lançamento de Artéria 5, no MASP, com grande exposição, ele esteve em São Paulo – foi quando o conheci pessoalmente (Paulo Miranda já havia estado com Erthos, em Salvador-Bahia). Havia nos enviado em trabalho mais-que-interessante e que foi impresso, como os demais, pelo processo serigráfico. Ele até tentou colaborar financeiramente com Artéria 5, mas, já não era preciso. Ainda falei com ele por telefone (na época, eu cursava o Doutorado em COS, na PUCSP, e pesquisava a Poesia Visual em geral e as “revistas”, em particular) e, tendo-lhe perguntado sobre Código, ele me disse: – Está parada. Simplesmente. Quando, em 1995, eu lhe telefonei para saber se havia recebido um meu trabalho (o 1º volume do De Amor e Merda) ele me respondeu, após eu ter-me identificado: – Omar? Quem? O Alzheimer já o estava acometendo. Foi-se relativamente cedo, no ano 2000, antes de se tornar um septuagenário. Sua poesia ainda carece de ser reunida e isto ainda virá a acontecer. A façanha da Código – que chegou a ser uma publicação mutante, quanto a formato – coloca-o na História da Poesia Experimental brasileira, além da importante obra poético-gráfica que chegou a produzir, e suas incursões poéticas em linguagem computacional, em que foi um pioneiro. É pequena minha correspondência epistolar com Erthos Albino de Souza, a qual ainda conservo. Grande pessoa, o Erthos.

            O ano de 1974 constitui-se num marco de publicações coletivas experimentais, no Brasil. Código, Polem, Navilouca marcaram e ainda impressionam aqueles que, em casa de algum amigo ou numa seção de biblioteca têm a sorte de encontrá-las. Código inaugura a safra de ótimas revistas, tendo sobrevivido à maioria delas.

Omar Khouri – São Paulo, 18 de outubro de 2017

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