39. (De São Paulo De Piratininga) Depoimento: 30 de dezembro de 2016

Vi e ouvi, nos anos 1960, durante uma aula, Dona Maud Pires Arruda afirmar que os inventos do Prof. Pardal apenas aguardavam o momento certo para se configurar na Realidade. Do videotexto à Internet, vi e vivi e fui agraciado com a telecomunicação de som-e-imagem, mas sinto-me atropelado pela alta-tecnologia. Vi o nascer do Rock’n’roll, da Bossa Nova, dos Beatles, dos Stones, da Jovem Guarda, da Tropicália, Hendrix e Joplin, descobri a Poesia Concreta, Walter Franco, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Nina Hagen, Arnaldo Antunes. Assisti à revolução na Moda, principalmente a masculina, que liberou aos varões todas as cores do Mundo. Assisti à investida espacial. Vi Godard, o Cinema Novo, Júlio Bressane. Conheci Tarsila do Amaral, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo, José Lino Grünewald, Edgard Braga, Pedro Xisto, Jorge Luis Borges – vi a alguns metros de minha mesa, Julio Cortázar, num bar, em São Paulo. Apurei meu paladar (ele foi-se apurando). Assisti ao crescimento monumental da cidade de São Paulo, nos últimos 50 anos. Co-editei Artéria, revista de poesia experimental. Amei Dalva de Oliveira e Billie Holiday. Ensinei História para um público de pré-adolescentes e adolescentes, que via como protagonistas de uma Nova Era. Vi que as guerras nunca terão fim (infelizmente) e assisti ao fim de umas e os começos de outras tantas. Assisti à Revolução Sexual (pensamental e prática) e fiquei à deriva, dando, outrossim, asas à imaginação (sesso può essere cosa mentale?). Especializei-me em amores-não-correspondidos, mas aprendi a não ser inconveniente para os objetos-de-meu-desejo. Sempre caminhei a passos lentos, quelônicos, mesmo, mas firmes e, ouvindo conselhos, de graça (como sempre), procurei objetivar minha vida. Vi meninos e meninas, meus coetâneos a mergulhar na cannabis e chás-de-cogumelos + álcool e, mesmo não aderindo à tal aventura, cri em sua utopia, respeitei-a, embora considerando a efemeridade da existência e sabendo que o “tempo urge”. Percebi que Felicidade é vocação: ou se tem ou se não a tem, mas é possível administrar a existência, e que o importante é o estar-bem-no-mundo. Desde 1970, ano em que vim morar em São Paulo, estive 650 vezes em Pirajuí, a São Sebastião do Pouso Alegre. Vi a ascensão do movimento feminista no Brasil: a era das mulheres-cabeça, muito embora muito ainda falte para uma melhoria de facto, mas o empoderamento feminino é algo concreto – sempre estive rodeado de mulheres admiráveis. Tenho assistido à luta dos afrodescendentes, numa sociedade hipócrita, que camufla a discriminação – necessário batalhar. Fiz amizades que me são caras, sendo que algumas já duram mais de meio século. Descobri que viajar é bom e que em todo o mundo se pratica sexo, com fins recreativos e de reprodução. Escolhi a Docência como profissão e lecionei em todos os níveis: do Infantil à Pós-Graduação. Aprendi muito com meus alunos e alunas dos Ensinos Fundamental, Médio e Superior e concluí que não se impõe alto-repertório, mas se o sugere. Perdi muitos entes queridos: pai e mãe, tios-tias, primos-primas, amigos-amigas. Passei por uma cirurgia em grande estilo: foi-me implantada uma Mitral metálica, tendo sido os médicos muito generosos comigo e, desde então, sou meio-biônico. Percebi que, no momento em que nosso paladar mais se aprimora, é o momento de fecharmos a boca e que o segredo da boa saúde é a parcimônia no comer. E notei que estou dobrando o Cabo-da-Boa-Esperança e o meu País, o Brasil, continua a perder o Bonde da História. Meu Deus, até quando? Meninos, meninas: eu vi… XAIPE!

Publicado no Facebook, em 30 de dezembro de 2016.

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