23. Contactos entre Criadores etc.

Se foram raros (raros, não inexistentes) os contatos Brasil-Portugal em termos da Poesia e da Arte em geral, a partir do século XIX, no Brasil é quase inexistente o contacto entre os vários grupos/vertentes da Poesia Visual, como é genericamente denominada a poesia que, entre outros recursos, utiliza a visualidade (gráfica, cromática etc.) como elemento de ordem estrutural. No caso, por exemplo, da Bahia, foi diferente: considerando a revista Código lá editada, de 1974 a 1990, por Erthos Albino de Souza (1932-2000), engenheiro e poeta, que mais publicou em revistas, tendo sido pioneiro na utilização da linguagem computacional – ainda, o sistema Fortran – para a poesia, obtendo ótimos resultados, assim como, desde os anos 1960, colaborava, em pecúnia, com publicações que diziam respeito ao Concretismo paulista – quase-sempre com Antonio Risério (1953-) desempenhando importante papel de co-organizador e que despontou nos ’70 como menino-prodígio, inteligência extraordinária e grande talento para a Poesia, que praticou visualidades e fez uma das mais belas peças da Lírica em Língua Portuguesa: “por mais que eu tente pôr menos de mim…”, conhecedor, como poucos, do Concretismo paulista. Código foi uma importante publicação, chegando, prodigiosamente, ao nº 12! e era intimamente ligada a São Paulo, em especial a Augusto de Campos. No caso de Paulo Leminski, também: operando a partir de Curitiba, Paraná, a mesma ligação por afinidade de pensamento e amizade – o autor do Catatau pouco praticou visualidades e fez a sua revolução de linguagem construindo uma prosa poética que já entrou para a História, porém, até hoje mal-digerida no Brasil. Em Curitiba, Leminski organizou muitos números do Suplemento Pólo Cultural Inventiva, que veiculava o melhor da produção brasileira de fins dos ’70. Essas são, portanto, exceções. Mas porque essa falta de contactos num mesmo país? Tento responder à questão: 1º por ser o Brasil um país de dimensões continentais (mais de 8,5 milhões de km2), os contactos presenciais ficam difíceis, assim como apreciação de exposições, que essa poesia é, por natureza, exponível. 2º o predomínio Rio-São Paulo acaba por obrigar artistas em geral a mostrar seu trabalho nessas metrópoles, para que possam “acontecer” para o País, sendo que nem sempre os próprios artistas desses centros têm acesso aos media. Por outro lado, seria altamente positivo o desenvolvimento de outros centros irradiadores da produção artística brasileira, o que está a acontecer, muito embora esse desenvolvimento venha se processando com muita lentidão. O milagre da Internet não é garantidor de contactos ou de trânsito da informação em 100%. 3º A rivalidade existente – ainda – entre São Paulo e Rio de Janeiro. Tendo sido São Paulo o berço da Poesia Concreta (precedida, entre outros importantes processos, pelo Movimento de 22) e o centro irradiador de uma produção rigorosa e informada, e também pelo fato de ser a Pauliceia a capital econômica do Brasil, é vista como dominadora e atravancadora do desenvolvimento de outros Estados, quando, em verdade, a eternização de elites regionais tem sido a responsável pelo não-desenvolvimento local. (O Rio de Janeiro, como já colocou Décio Pignatari, representa a síntese entre um Brasil ruralista e um Brasil industrializado sendo, portanto, mais aceito). Se São Paulo está com o dinheiro, como tem sido dito, o dinheiro não está com os poetas de São Paulo, que a própria mídia impressa simplesmente ignora. Poetas paulistas, principalmente os experimentais, que possuem afinidade com o Concretismo, são excluídos de eventos por poetas experimentais de outros Estados e outras linhagens (há exceções). O caso do Poema-Processo, que se desenvolveu a partir da 2ª metade dos anos 1960, foi mais flagrante: poetas paulistas não eram admitidos e/ou desejados. Ficamos sabendo de eventos envolvendo o que comumente se chama de Poesia Visual, quando já aconteceu. De qualquer modo, fica a questão aí, para ser pensada. Nós, da Nomuque Edições, que também nos tornamos impressores, nunca contamos com patrocínios: nossas edições eram e são autofinanciadas na base da canalização de parte de nossos salários e, todos sabemos, edições autofinanciadas nunca dão retorno financeiro, bem porque a distribuição, sendo por demais precária, não propicia o ressarcimento dos custos, e nem é computado o fator-trabalho, que sai de nós-mesmos. A Nomuque Edições viveu, em certos momentos, um verdadeiro comunismo – e isto eu estou a dizer pela primeira vez – sem teorias, viveu, sem se auto-classificar, um verdadeiro sistema de cooperativa. É claro que o trabalho de edição/seleção envolvia um certo sectarismo. Em Portugal, país com menos de 100 mil km2, porém, complexíssimo, não se observou rivalidade entre cidades, como no Brasil e teve Lisboa como centro de irradiação do experimentalismo em Poesia, mas muita coisa aconteceu e acontece fora da capital: eventos de grande importância. Acredito que seja possível e é preciso romper com o monopólio exercido culturalmente pelos maiores centros populacionais do Brasil. A Poesia, as Artes, antes de tudo.

.E. M. de Melo e Castro a mim – e-mail de 10.11.2015:

Não, não houve nenhuma rivalidade entre Lisboa e Porto [as duas maiores cidades de Portugal], por várias razões. A primeira é que nunca houve nenhum grupo constituído, nem em Lisboa nem no Porto, nem em Coimbra, nem no Funchal (Madeira).

O [António] Aragão e o Herberto Helder eram naturais da Madeira, mas isso nada influiu na criação da revista experimental. É certo que os dois tiveram um projecto juvenil de fazerem uma revista que certamente nada teria de experimental.

Quando anos depois os dois se reencontram em Lisboa, o Aragão teve a ideia original de fazerem uma revista experimental para a qual convidaram os colaboradores do 1º número, em 1964. No 2º número, de 1966, eu entrei como um dos organizadores, responsável pelas colaborações internacionais.

Mas o centro irradiador foi sempre Lisboa, onde também se realizou o 1º happening português, organizado pelo músico Jorge Peixinho e outras exposições das quais a mais importante foi na Galeria de Arte Moderna de Belém, em Lisboa, 1980, onde surgiu a sigla PO-EX, que dura até hoje.

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Radicalizar: não há outra atitude para os que se empenham em chegar a algo novo. Elegem-se valores – buscam-se os pais artísticos e intelectuais – e todo o resto é refugado, independentemente de um certo valor que possa conter. Essa revisão, de modo a achar e apontar e valorizar a qualidade onde quer que ela esteja é coisa de maturidade e velhice, o chamado “estágio de sabedoria”. E curioso, se esses “pais” ainda estiverem vivos e atuantes e tiverem a chance de apreciar a obra dos mais novos, nela não se reconhecerão: de Freud a Pound a Duchamp. Os pais não se reconhecem ou não querem se reconhecer em seus filhos: “Ah! Então eu era assim?!” O importante, em certos momentos é ter projetos, independentemente da questão de sua exequibilidade, de suas possibilidades. Mesmo que beirando a impossibilidade, o importante é ter algo enquanto projeto e perseguir os objetivos ali explícitos.

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Compreendemos, nós do Ocidente, herdeiros dos gregos e até condicionados por um tipo de pensamento/raciocínio que nos vem da Hélade, o pensamento do Oriente, do Extremo-Oriente, digamos? O que já somos nos permite adentrar os segredos de um outro povo, um outro universo? O domínio do idioma já é uma porta bastante larga, mas não o suficiente. Não se penetra o imo de uma Civilização se não se formou dentro dela. Pode-se compreendê-la em parte e há gente curiosa e por demais inteligente que fez tentativas e até chegou a resultados satisfatórios (para os padrões ocidentais), mas, certamente, não chegou lá (o mesmo será verdadeiro para os de Lá com relação ao Cá). Compreende-se o que se pode compreender e há disto consequências. Boas, enriquecedoras. Se se entende como um da terra, nada acontece além do entendimento, mas se se entende como é possível entender, isto terá desdobramentos e acréscimos na cultura intrusa. É claro que não sou especialista e nem tive o alcance, com relação a Fenollosa e Pound, que Haroldo de Campos teve, mas arrisco-me a dizer que Fenollosa, um erudito com contribuições inestimáveis para o Oriente e para o Ocidente, entendeu o Ideograma como pôde entender, daí plantar ideias que seduziram Pound e a coisa deu no que deu: um enriquecimento da Poesia no Ocidente, com muitos desdobramentos importantes. Foi preciso mostrar aos orientais as riquezas culturais que eles possuíam – e isto foi feito por ocidentais, os grandes observadores. Para um japonês, canji era canji e bastava! Mas ocidentais (Haroldo de Campos também entra aí) mostraram o que havia de concreto na escrita que japoneses haviam assumido dos chineses. Sierguiei Eisenstein não lamentou um certo americanismo que acometia o cinema japonês, quando o x da montagem já estava no seu sistema de escrita? Compreenderam os fauves, os cubistas a escultura da África Negra? Haviam compreendido os impressionistas e pós-impressionistas, plenamente, a xilogravura japonesa? Aí é que está: por só compreenderem o que podem ou puderam compreender é que fizeram o que fizeram: revoluções na linguagem – senão, não as fariam, integrar-se-iam nas respectivas culturas. Um grande museu, uma grande biblioteca, não apenas evidenciam a importância que um país dá à Cultura e à Arte em particular, mas propiciam a quem os possui a ilusão de domínio sobre aquelas culturas lá representadas, a ilusão da ciência sobre aqueles povos e, mesmo (inconfessavelmente) o poder do tacão sobre eles. Coisas de Humanos Seres.

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Houve época em que eu tinha mãe jovem-senhora, e dizia: “Depois dos 80, tudo é lucro!” Hoje não penso assim e até me desespero com certos passamentos, mesmo aos mais de 100 anos de idade. Recentemente, em Portugal, foi a vez de Herberto Helder (1930-2015), natural do Funchal (Madeira), faleceu em 23 de março. O poeta, fino poeta, esteve ligado às origens da Poesia Experimental portuguesa tendo sido co-organizador de Poesia Experimental 1 e 2, importante revista – depois, afastou-se dos experimentais. Ana Hatherly (1929-2015), natural d’O Porto, faleceu em 5 de agosto. É poeta experimental histórica, artista plástica e pesquisadora – fez importantíssimo trabalho de militância crítica. Gilberto Mendes (1922-2016), natural de Santos-SP-Brasil, morreu em 1º de janeiro. Músico, com atuação importante junto aos poetas concretos, cujos poemas musicou – promoveu, durante décadas, o Festival Música Nova. Em 16 de abril de 2015, aos 53 anos, faleceu Pipol (José Waldery Mangieri Pires), natural de Tupã-SP-Brasil – poeta e homem multimedia, ele criou e administrou o Cronópios, Portal de Literatura, com milhões de acessos mensais, abrigando um leque considerável de produção artística, sem preconceitos, sem sectarismo. A impressão que dá, com esses desaparecimentos, é a de que o Mundo se vai empobrecendo. De qualquer modo, a Vida se processa. Auguri!

Omar Khouri . Lisboa . 2016 . Bolsista PDE pelo CNPq junto à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa . Supervisor: Prof. Dr. João Paulo Queiroz

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