12. A Poesia do Grupo Noigandres não nasce Concreta: torna-se.

Décio Pignatari (1927-2012) conheceu Augusto (1931-) e Haroldo de Campos (1929-2003), em fins dos anos 1940, a propósito de Poesia (se os Andrades do Modernismo não eram sequer parentes, os Campos do Concretismo eram irmãos!). E essa amizade teve mais motivos para se solidificar, além do grande interesse pela Arte da Palavra, pelo fato de os três cursarem Direito na Faculdade do Largo de São Francisco (Décio começou, depois Haroldo e, então, Augusto, que se formou com Décio, que nunca exerceria a Advocacia, e que terminou a Faculdade mais por exigência do pai). Já nesse tempo, fazem visita a Oswald de Andrade, modernista histórico que admiravam e que comparecerá no futuro Plano Piloto para Poesia Concreta, ao lado de João Cabral de Melo Neto, como as duas grandes e únicas referências brasileiras da poesia que estavam a praticar. Haroldo de Campos e Décio Pignatari publicam seus primeiros livros de poesia em 1950: Auto do Possesso e O Carrossel, pelo Clube de Poesia (espécie de reduto da “Geração de 45”); Augusto de Campos publica O Rei Menos o Reino, em 1951, Edições Maldoror (em verdade, um volume autofinanciado). Os moços já vêm com uma poesia diferenciada, em relação ao que estava em voga naquele momento em São Paulo e no Brasil, e isto foi notado pelo historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Holanda, e exposto em artigos sobre os novos poetas, antes, inéditos em livro, no ano de 1951. Motivados pela então misteriosa (mas, com um halo de positividade) palavra “Noigandres”, citada no Canto XX, de Ezra Pound (1885-1972), extraída de poema do trovador provençal Arnaut Daniel (1150-1210), formam o Grupo Noigandres, em 1952, o que é assinalado pela publicação do nº 1 da revista do mesmo nome. A poesia que publicam na revista já traz índices de algo que estava para acontecer, ou seja, indicava um caminho com surpresas e muita novidade, considerando-se ainda a curiosidade dos rapazes (aquela que conduz ao conhecimento, a mesma que acometia Leonardo da Vinci) e a cultura poética enorme que já possuíam. Nesse mesmo ano de 1952, o Grupo Ruptura faz a sua 1ª exposição e lança manifesto: algo de uma grande radicalidade, ainda mais considerando que a Abstração chegou, de facto, tardiamente ao Brasil e tratava-se de uma arte de caráter construtivo (Abstracionismo Geométrico, como comumente se diz). O Grupo Ruptura já nasce Concreto (o manifesto de Van Doesburg… – Art Concret – é de 1930. Já havia, portanto uma Arte Concreta, assim como já existia uma Música Concreta) e, inicialmente, era formado por sete artistas, apenas dois nascidos no Brasil: Geraldo de Barros e Luís Sacilotto – os demais, a começar pelo líder Waldemar Cordeiro (brasileiro nascido em Roma), vinham da Europa: Lothar Charoux, Anatol Wladislaw, Kazmer Féjer e Leopoldo Haar. Desses, acercaram-se outros, como Hermelindo Fiaminghi, Maurício Nogueira Lima, Judith Lauand e Alexandre Wollner. No Rio de Janeiro, menos sectário, forma-se, em 1954, o Grupo Frente, que também terá importante papel na Arte Brasileira. Ruptura e Noigandres: nasce, daí, uma duradoura amizade entre seus integrantes + a admiração que todos nutriam pelo italiano nascido em Lucca, Itália, Alfredo Volpi (1896-1988), um pintor autodidata que teve um percurso singular na arte brasileira, desembocando num peculiar construtivismo, elaborado à base de têmpera. O Brasil vinha de uma mudança importante a partir de 1945, com o fim do Estado Novo: ditadura de Getúlio Vargas, e era acometido de ondas de euforia, o que iria culminar na segunda metade dos anos 1950, durante o Governo JK. 1947: fundação do MASP. 1948: fundação do MAM-SP. 1949: fundação do MAM-RJ. Exposições de Alexander Calder (Rio de Janeiro e São Paulo) e de Max Bill (em São Paulo). I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo: 1951, sendo que a atenção dos mais empenhados em mudanças se voltaram para as obras dos artistas da delegação suíça, entre eles Max Bill, que recebeu o prêmio de Escultura, e as Bienais continuam a se realizar: 1953, 1955 etc. São do primeiro semestre de 1953 os seis poemas coloridos que compõem a série Poetamenos, de Augusto de Campos, elaborados a partir da experiência que o então jovem poeta teve com a audição e estudo da Música de Anton Webern (1883-1945): fascinou-o a Klangfarbenmelodie (melodiadetimbressomcormelodia), coisa que ele transpõe para o campo da visualidade e já criando palavras, aglutinando e decompondo-as. Os poemas dessa série utilizam de duas a seis cores (poderíamos até chamar a operação de uma – em parte – tradução intersemiótica, evocando Jakobson) e são considerados como formando o primeiro conjunto de poemas propriamente concretos. Enquanto não houve possibilidade de imprimir a série numa gráfica, os poemas eram distribuídos em cópias feitas com carbonos coloridos, até que saem em Noigandres 2, ano de 1955, acompanhados de um texto explicativo-manifesto – esse foi um de dois textos metalinguísticos publicados em Noigandres, que contou com 5 números (o outro foi o Plano-Piloto para Poesia Concreta, em Noigandres 4, 1958). Nessa altura, Décio Pignatari já se encontrava na Europa (meados de 1954 – meados de 1956), sendo que, na Alemanha, em Ulm, acabou por travar contacto com o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer – secretário de Max Bill na Hochschule für Gestaltung – Escola Superior da Forma, herdeira da Bauhaus – donde nasceria o movimento internacional da Poesia Concreta. No mesmo ano de 1955, Augusto de Campos propôs a denominação Poesia Concreta, para aquela que estavam a praticar, já que existiam uma Arte Concreta e uma Música Concreta. (Um artista sueco nascido em São Paulo, Öyvind Fahlström, pouco antes, havia proposto uma poesia concreta, o que não teve repercussão.) Em carta a Décio Pignatari, de agosto de 1956, Eugen Gomringer concorda com a denominação “poesia concreta”. Noigandres 3 sai em 1956, já trazendo subtítulo “poesia concreta”. Costuma-se dar como lançamento “oficial” da Poesia Concreta, no Brasil, a Exposição Nacional de Arte Concreta – que incluía os poetas Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo, Ferreira Gullar e Wlademir Dias-Pino – que aconteceu em dezembro de 1956, em São Paulo, por ideia do Grupo Ruptura. A exposição, em inícios de 1957, realizou-se no Rio de Janeiro e neste ano já tem início dissidência entre os que operavam a partir de São Paulo e os que operavam a partir do Rio de Janeiro, liderados por Ferreira Gullar, o que culminará, em março de 1959, com o Manifesto Neoconcreto e a exposição que se realiza na então Capital do Brasil. Nessa altura, Brasília já se concretiza e a Bossa Nova (nascida na Zona Sul do Rio de Janeiro) é sucesso nacional e vive-se a ilusão/euforia do desenvolvimentismo. Concluindo: o Grupo Noigandres não nasce Concreto, torna-se Concreto no processar-se dos anos 1950.

Obs. 1: Formado originalmente por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, o Grupo Noigandres foi-se ampliando, primeiro com Ronaldo Azeredo (1937-2006) e, depois, com José Lino Grünewald (1931-2000). Podem ser considerados, também, como fazendo parte do Grupo, a partir dos anos 1960: Edgard Braga (1897-1985) e Pedro Xisto de Carvalho (1901-1987).

Obs. 2: Como disse certa vez em entrevista, Augusto de Campos, quanto às Artes Plásticas Concretas e Neoconcretas, que, vendo-as à distância, não havia diferenças substanciais entre as obras dos dois grupos as quais, à época, haviam sido maximizadas. Poesia Neoconcreta, quase não existiu, ou existiu pouco, sem, porém, a grandeza a que chegaram os artistas plásticos. A racionalidade Noigandres irritou e indispôs pessoas e virou lugar-comum acusar os paulistas de racionalistas (frios): de Ferreira Gullar a Mário Pedrosa. Conte-se o espírito de guerreiro de Waldemar Cordeiro e Décio Pignatari + a alta-tecnologia pensamental de Haroldo de Campos e Augusto de Campos. Gullar ficou irritadíssimo com texto metalinguístico de Haroldo de Campos, de 1957: “Da fenomenologia da composição à matemática da composição”. Daí, a março de 59, foi o tempo necessário à ruptura de facto, que alguns colocam mais como delimitação de territórios do que diferenças artísticas formais ou de postura. O Rio seria, então, dos neoconcretos, tendo na liderança Ferreira Gullar. Em texto do História Geral da Arte no Brasil, volume 2, o grande crítico, historiador e promoter Walter Zanini (1925-2013), ao discorrer sobre a Arte Construtiva no Brasil, diz exatamente isto: a cisão concretos/neoconcretos se explicaria, para alguns, mais como uma disputa de poder do que por diferenças propriamente artísticas. Gullar logo abandona a experimentação e abraça uma outra causa, operando com fórmulas tradicionais. Anos mais tarde, enfim, reassume a sua produção concreta/experimental e publica o poema com que participou da Exposição Nacional de Arte Concreta (1956-7), com modificações, poema sobre o qual se tinha imensa curiosidade: Formigueiro. Mais recentemente, Gullar andou fazendo declarações estapafúrdias, como a que nada tinha contra a Poesia Concreta, pois ele a tinha inventado. “Eu desestruturei o verso”, chegou a dizer, coisa que não corresponde nem de longe à verdade, pois que, quem desestruturou o verso foi outro excelente verse-maker, o estadunidense e. e. cummings. Gullar continua a cultivar a sua ira contra concretistas de São Paulo. E entrou para a Academia Brasileira de Letras.

Obs. 3: Fiz questão de frisar que as duas maiores cidades do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, eram os dois grandes centros irradiadores da arte erudita no Brasil e, desde os anos 1920, São Paulo vinha tomando uma espécie de dianteira (e veio a se tornar a maior cidade do País, em termos populacionais). Pessoas de todo o Brasil e de fora acabaram por se radicar nessas duas cidades – poucos eram verdadeiramente paulistanos ou cariocas, dentre os que estavam a fazer a Grande Arte. Nas Artes Plásticas, estrangeiros abundavam, porém, na Poesia, que de qualquer modo exige um pensamento a partir de um idioma específico, não. O que me ocorre, agora, é um único caso de poeta estrangeiro que atuou nas hostes neoconcretas e que era psicanalista, pintor, colecionador, também: Theon Spanúdis (Esmirna, Turquia: 1915 – São Paulo, Brasil: 1986), que assinou o Manifesto Neoconcreto de 1959 e produziu poemas. Nessa atividade de poeta, pode ser considerado um esquecido (injustamente?) – é mais lembrado como colecionador e como doador de sua coleção (com muitas obras de Alfredo Volpi) ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

Omar Khouri . Lisboa . 2015 . Bolsista PDE pelo CNPq, junto à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa . Supervisor: Prof. Dr. João Paulo Queiroz

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